Punch

A Comédia Trágica ou a Tragédia Cômica de Mr. Punch – Neil Gaiman & Dave Mckean


O trailer do horroroso filme Superman O Retorno trazia uma cena polêmica: um bandido dava um tiro no olho do heroi, e a bala amassava contra sua retina sem causar nenhum dano. Isso criou a discussão entre fãs de quadrinhos sobre o corpo do superman: até seus olhos aguentariam um impacto destes impunes? É uma coisa boba que define bem o universo dos super-heróis e, de certa forma, hqs em geral. As personagens duram décadas e ficam estagnados. Cada detalhe é conhecido, anotado. As mudanças são temporárias. É fácil encontrar fichas técnicas oficiais dizendo exatamente o que cada personagem é capaz, como ele se daria contra outros personagens… Neil Gaiman e Dave Mckean escolheram trilhar um caminho oposto em suas obras. Os mistérios e incertezas são seus pontos fortes. E um bom exemplo disso é A Comédia Trágica ou a Tragédia Cômica de Mr. Punch.

Mr Punch é um teatro de fantoches popular na Inglaterra. Conta a história do próprio Mr Punch, que dependendo da versão é só um malandro ou alguém bem mais cruel, e que com sua astúcia e violência consegue enganar a todos que vem tentar contê-lo. E o show de bonecos desperta em um adulto lembranças de quando ele era criança, e terríveis segredos de família que estavam guardados há muito tempo esperam reflexões e respostas. A lembrança o leva a um verão distante que passou na casa de seus finados avós. E a  perda de sua inocência e sua gradual passagem para a vida adulta.


O texto de Gaiman é muito bom, como sempre. Funcionaria bem sem ilustrações, com um tom melancólico e pessoal. Mas o que torna a obra única é a arte de Mckean. Ele mistura recortes, pinturas, fotografias, desenhos e técnicas mais incomuns para compor imagens vagas e ao mesmo tempo detalhadas. Como um sonho, ou uma lembrança. A narrativa é feita em ritmo lento, e cada quadro é importante por si só. Fugir dos padrões é sua especialidade, mas em Mr Punch ele se supera. Ao ler vai ficando uma sensação incômoda de que há mais por trás do que está sendo mostrado. Uma sensação incomum nos quadrinhos, que normalmente usam mais de ação ou romance para emocionar os leitores.

Há duas edições da Conrad: uma mais cara, de capa dura, e uma mais barata, de capa cartonada. O cheiro de tinta da edição cartonada é muito forte e chega a incomodar, mas some depois de alguns dias. Há muito poucas explicações e referências, o que atrapalha a interpretação de uma história puramente inglesa. Pra quem quer uma experiência diferente do que está acostumado a ter com hqs Mr Punch é imperdível, e uma das melhores parcerias dos dois autores.

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