AGameOfThrones5

A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo, Vol. 1

A Guerra dos Tronos é o primeiro volume da série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo, do aclamado escritor estadunidense George RR Martin. Publicado pela primeira vez em 1996, só chegou ao Brasil no ano passado. O motivo da demora está além da minha compreensão, pois é excelente. Existem outros três livros que dão continuidade à história e ainda estão esperando para serem lançados por aqui, e mais três planejados mas ainda não finalizados. Uma série da HBO, que vai ter o Sean Bean (Boromir do filme O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel) e mais um monte de gente desconhecida, está prevista para estrear em abril. Cada livro será uma temporada.

As principais áreas são os Sete Reinos de Westeros, delimitados ao norte pela Muralha e por mar nos outros lados, e a região de Essos onde vivem os povos dothraki, que têm uma organização social completamente diferente da dos sete reinos. Temos também a terra de Asshai, próxima de Essos, que é mencionada mas não visitada e breves cenas que acontecem pra-lá-da-Muralha. Um detalhe muito importante é que as estações não têm duração fixa, os verões duram anos e os invernos décadas. Sem falar no raro verão de dez anos (que no momento em que a história começa está chegando ao fim) sempre sucedido por um inverno muito mais longo e rigoroso que o normal. Existem três histórias distintas que são apresentadas desde o início e vão ficando mais interligadas conforme o livro avança.

A primeira delas se refere à situação política dos Sete Reinos e é contada predominantemente sob o ponto de vista da família Stark. Os Stark moram no norte, longe da capital, e por motivos que é melhor não dizer aqui alguns deles são obrigados a ir para lá, onde não são muito queridos.

A segunda trata da situação da Muralha, que é defendida pela Patrulha da Noite. Os números desta organização têm caído vertiginosamente – em parte devido a deserções, em parte devido ao aumento da atividade de bárbaros e de uma raça de seres muito poderosos conhecidos apenas como Os Outros, que vivem pra-lá-da-Muralha.

A terceira é sobre Daenerys e Viserys, os últimos membros da dinastia Targaryen, que fugiram para o exílio durante uma guerra civil que se passa antes dos eventos do primeiro livro e na qual morreram todos os seus familiares. Viserys deseja casar Daenerys a um chefe tribal dothraki e usar parte de seu exército para recuperar o trono que pertencia à sua família, se tornando o novo rei. Falar mais que isso sobre qualquer uma das três linhas seria spoiler, então mudemos de assunto.

George já foi comparado a Tolkien muitas vezes, e não sem motivo, pois ambos são ótimos escritores. Sempre que algum escritor de fantasia faz um moderado sucesso, a editora fala que encontrou o novo Tolkien, o que na maioria das vezes não é verdade. Uma vez o Heider me emprestou um livro de um tal Raymond E. Feist, eu li e é uma completa perda de tempo, e mesmo assim várias pessoas falavam maravilhas na capa do livro. Mas parece que todo mundo acertou ao dizer que o George é tão talentoso quanto o Tolkien.

Acredito que ele se tornou famoso por não ter se prendido aos clichês que resultaram do apego irrestrito ao modo como livros de fantasia eram escritos na época dos Inklings. Se alguns elementos de O Senhor dos Anéis fossem usados hoje da mesma forma que eram usados nos anos 50, seriam considerados ridículos, porém escritores como o Raymond E. Feist fazem exatamente isso. É preciso reciclar algumas coisas. George foi fiel às bases do gênero, mas escreveu do seu jeito, ao contrário de escritores como o Feist que não trazem nada realmente deles, só escrevem histórias nos mesmos moldes de antigamente.

Por falar nisso, A Guerra dos Tronos tem características bem interessantes. A narração é feita através dos pontos de vista de um certo grupo de personagens, que vão se alternando, embora cada capítulo tenha apenas um ponto de vista. Essa técnica, aliada ao grande número de personagens (não contei, mas seria capaz de apostar que o número de personagens é próximo de duzentos) dá liberdade aos leitores, deixando-os escolher qual será a personagem (ou núcleo de personagens) mais importante. Foi uma coisa muito inteligente, pois é possível perceber que as coisas estão apenas começando a se complicar. Isso é outro traço do George: dar dicas sutis ou introduções de eventos que só irão se desenvolver de forma plena nos próximos livros.

O uso de múltiplos pontos de vista produz outros efeitos. Ali em cima eu disse que tem muitas personagens, e como os Sete Reinos são vastos é de se esperar que eles fiquem espalhados. Se tivéssemos que ficar seguindo a mesma personagem o tempo todo o livro seria bastante diferente, ao estabelecer uma rotação entre personagens fica muito mais fácil apresentar cenas que acontecem ao mesmo tempo mas em lugares diferentes. A rotação também assegura que nenhuma personagem terá dois capítulos em sequência, criando suspense e fazendo com que as pessoas queiram ler mais e mais para descobrir o que vai acontecer com determinada personagem em sua próxima aparição.

Vale ressaltar que George não impõe juízos de valor aos leitores, o que não apenas evita marcar certos personagens como ‘os bons’ e outros como ‘os maus’ como reforça seu humanismo. Daenerys foi forçada a se adaptar a uma cultura estranha, e isso se reflete em seus capítulos, que têm uma atmosfera de insegurança e aprendizado. Já o anão (ele é um humano com nanismo, não um anão como o Gimli) Tyrion Lannister tem que conviver com as diferenças: com a tradição militarista dos Sete Reinos, ele normalmente sofreria um enorme preconceito, porém isso não aconteceu, uma vez que ele é de uma das famílias mais importantes. Assim, seus capítulos transmitem opressão por não atender a expectativas e também necessidade de se destacar em alguma coisa, e ainda dão a entender que ele enfrenta esses conflitos internos há algum tempo, talvez até tendo se acostumado. Dei apenas dois exemplos aqui, muitas personagens são de uma profundidade exemplar.

E tudo isso apenas no primeiro livro. Com seis volumes pela frente, acredito que iremos encontrar novas ferramentas literárias, novos temas controversos (eu optei por não abordar os temas controversos desse volume pois poderia acabar com a diversão de quem ainda não leu, mas está tudo lá, basta prestar um pouco de atenção), personagens e situações ameaçadoras do primeiro volume se desenvolvendo, novas personagens, novas situações ameaçadoras, e talvez novos elementos sem paralelos no primeiro volume. George é ambicioso. Se a série ficar exponencialmente mais complexa como este volume indica, teremos algo realmente grande e de alta qualidade nas mãos.

One comment

  1. Belo texto :] Só queria comentar que a tradução nacional é adaptada de Portugal. Não que seja ruim, na verdade é muito boa, mas chega a ser cansativa. Li um pouco em inglês e o texto é rápido e fluido, mas pra nós a versão nacional é uma leitura arrastada. Na minha opinião se tivessem feito uma adaptação boa da tradução de Portugal o livro atingiria muito mais pessoas. Mas fora isso gostei muito da edição nacional. Leve, porém resistente. Papel de qualidade e impressão boa.

    O autor é famoso por matar personagens. O que está me deixando tenso ao ler :D Alguns personagens são muito cativantes, como Snow e Bran. Mas estou gostando bastante. Dá pra entender pq a série está sempre presente em listas de melhores livros de fantasia.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *