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Annie Hall

Só assisti a dois filmes do Woody Allen: o extraordinário Match Point, que trata da força do acaso nas nossas vidas, e o medíocre Barcelona, uma propaganda para turistas totalmente dispensável. Decidi ver mais coisas do diretor, que teve uma influência muito grande no cinema. Resolvi começar pelo mais famoso, Annie Hall.



Talvez muitos não o conheçam pelo nome. No Brasil ele recebeu o título “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Título ridículo, pra dizer o mínimo. Foi lançado em 1977 e Woody Allen é o diretor, co-roteirista e protagonista. É considerado uma comédia romântica, embora eu não compreenda bem o motivo. Me parece aqueles filmes difíceis demais de catalogar, que acabam recebendo rótulos mais fáceis. Ao pensar nos filmes melodramáticos e repetitivos que saem em profusão (oi, Jennifer Aniston) e são considerados comédia romântica a distinção fica ainda mais clara. Allen intercala momentos de drama, comédia e profunda reflexão com situações e diálogos banais de maneira sublime.


A história é sobre um comediante chamado Alvy Singer (Woody Allen), um judeu divorciado que faz terapia há 15 anos. É uma pessoa nervosa e anti-social, com um complexo de superioridade enorme e que vê conspirações por toda parte. O típico neurórico urbano. Ao completar 40 anos ele se vê numa crise de meia-idade e se apaixona por Annie Hall (Diane Keaton), uma linda cantora no começo da carreira. O interesse é recíproco, e em breve eles começam um relacionamento.


O passado e os dois casamentos de Alvy são abordados em flashbacks, mostrando cenas que ajudam a definir sua personalidade. Em momentos geniais o protagonista para a cena e se dirige ao telespectador para disparar um comentário revoltado e ranzinza. Annie é o contraponto ideal a Alvy. A bela jovem é livre, receptiva e mais aberta emocionalmente que Singer. A partir destes dois personagens Woody desenvolve a trama centrada na complexidade e nos absurdos dos relacionamentos.


Allen mostra um enorme domínio na direção. E uma boa dose de ousadia, como uma cena animada que remete à Disney ou a linha de tempo não-linear em que a história é contada. A câmera normalmente é estática mas há muitas cenas e a passagem entre elas é rápida. Isso faz com que o filme não se torne maçante. Há montagens memoráveis, como a de Alvy e Annie com seus psicólogos. Os diálogos são abundantes e bem bolados, e o filme se prende a seu tema principal e não divaga. O visual é muito belo, com pessoas vestindo roupas de vanguarda e uma predominância de cores sem vida, que combina muito com o aspecto infeliz de Alvy e o modo como ele vê a vida.


A primeira vista leve e divertido, é um filme profundo que encara relacionamentos de um modo inquietante e verdadeiro. E essa honestidade é seu maior trunfo. Assim como o personagem principal, as vezes o filme chega a ser irritante, mas mesmo assim desperta simpatia por ser incrivelmente sincero e não se apegar a clichês.

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