Baldur’s Gate

Eu havia zerado Dragon Quest IX a pouco tempo. E já tinha acumulado uma quantiade boa de horas em  Final Fantasy 4 Heroes of Light. Por alguma loucura, resolvi comprar Baldur’s Gate The Original Saga no GOG. Apenas US$9,90 no primeiro jogo mais a expansão, rodando no Windows 7 e sem DRM é o tipo de oferta que não dá para perder.

Não gosto de jogar muitos RPGs ao mesmo tempo. Minha memória não é tão boa assim, e é comum eu voltar a um jogo e não me lembrar nem dos comandos mais (The Bard’s Tale de PS2 ¬¬), muito menos da história. Não me interessava jogar Baldur’s Gate no momento, porque eu sabia que iria ter que dividir meu tempo entre ele o Final Fantasy. Mas instalei o jogo pra testar e agora tenho certeza que não vou desinstalá-lo até zerar.

Meu primeiro contato com a série foi com Baldur’s Gate II. Em meados de 2005 eu ganhei meu primeiro computador. O primeiro jogo que coloquei nele foi Diablo II, que terminei em pouco tempo. A procura de algo mais complexo, achei Baldur’s Gate II. Eu tinha um bom tempo livre, porque a escola técnica não estava tão difícil. O jogo foi 100% traduzido pro português, o que era uma dádiva pois meu inglês na época era sofrível. E já tinha bom conhecimento sobre o mundo de Forgotten Realms, graças a meus anos de RPGista. E não tinha internet para afastar minha atenção.

Baldur’s Gate II foi um dos jogos que mais me marcaram. Na época eram cinco amigos que jogavam ao mesmo tempo, e as descobertas de um ajudavam aos outros. Os diálogos, as relações entre os personagens, os NPCS únicos, os cenários originais, o sistema de batalha envolvente, o roteiro épico… Tudo no jogo agradava. Por um motivo que não lembro eu não zerei, parei de jogar. E, embora referências pipocassem em tudo que fazia, deixei o jogo de lado.

Comecei com jogos mais japoneses. Embora alguns cRPGs aparecessem de vez em quando na minha vida como Icewind Dale, Planescape Tourment e The Elder’s Scroll IV – Morrowind, não me prenderam por muito tempo. Eu gostava deles, mas nenhum era Baldur’s Gate. Em compensação, joguei até doer os dedos um monte de jRPGs. Final Fantasy, Shining Force, Dragon Quest, Ys e muitas outras franquias se tornaram companheiras de diversão.

Até que surgiu o Baldur’s Gate Dark Alliance. Saiu para Xbox, PS2, Game Cube e GBA. Eu joguei a versão de GBA, e consegui terminá-la. Gostei bastante do jogo, embora não lembrasse em nada os antigos clássicos pra PC. Era só bater em monstros, o que era empolgante mas profundo como um pires. De todo modo o trabalho foi muito bom pro portátil. O jogo é bonito e tem um bom ritmo. Ano passado comprei um PS2 e acabei jogando um pouco da versão dele de Dark Alliance, mas novamente não me interessou tanto. Acabei deixando de lado, em detrimento de jogos melhores.

Finalmente comprei o jogo.

Testei por alguns minutos e após passar o prólogo já estava irremediavelmente viciado. O primeiro choque veio da liberdade. Nos jRPGs você cumpre uma quest ou conversa com alguém para liberar o caminho de uma dungeon. Na último nivel da dungeon há um chefe com um diálogo filosófico besta a ser derrotado. Depois de derrotá-lo um surge um caminho para uma nova cidade ou  um caminho antes bloqueado se torna acessível. E assim continua até o final. É simples ver qual é o objetivo. Normalmente a cidade foi amaldiçoada, está sendo atacada por monstros, tem um feiticeiro malígno na esquina. E vc segue resolvendo os  todos problemas de todo mundo, com uma bondade e despreendimento pessoal que faria Jesus Cristo corar de inveja.

E aí entra Baldur’s Gate. Em primeiro lugar o mundo é muito mais sujo. Há muito mais pessoas feias, pobres e infelizes. Roubo, prostituição e traumas estão muito mais presentes nos diálogos. Sexo não é “O Tabu”. O realismo também é maior, tanto nas armas quanto nos próprios cenários e personagens. Os problemas são bem mais complexos. Uma cidade pode estar sendo atacada por capangas de um grande bruxo, mas após derotá-lo a cidade não vira um paraíso. As pessoas continuam tendo problemas diversos, e recomeçar a vida não é fácil.

Há aquele clima comum de D&D e Senhor dos Anéis que ajuda bastante na imersão, mas a própria complexidade é o fator primordial. Tudo parece vivo. Os membros do seu grupo discutem entre si e com você, abandonam e retornam o grupo, tem seus próprios objetivos. Os NPCS são os mais variados possíveis. O próprio personagem principal pode ser tanto um santo quanto um genocida, e se manter nos extremos vai ficando mais difícil a cada passo.

Os monstros são uma ameaça constante. Poder salvar a qualquer momento não é uma opção que não está lá atoa. Um grupo de lobos pode, numa virada de sorte, acabar com alguns personagens do grupo. Ou com o principal, o que leva a Game Over. E, em casos normais, deixar pelo menos uns 2 personagens com metade do HP. Isso considerantos os primeiros inimigos do jogo. Ladinos, magos e personages de classes menos combativas não costumam ter muitos PVs, e com a baixa defesa protegê-los é essencial. A inteligência dos inimigos é boa, e muitas vezes eles procuram o ele mais fraco para atacar – ou inutilizam o membro mais forte enquanto fazem um banquete com os membros de suporte do grupo. Dificilmente um grupo vai ser forte a ponto de rir da cara do pergigo, e usar as particularidades de cada personagem é vital. A vida não é fácil em Baldur’s Gate.

Controlar tudo é muito fácil. A função de pausar o jogo é muito bem vinda, e adiciona uma quantidade grande de estratégia em cada combate. Conforme as condições da batalha vão mudando, convém afastar um personagem ferido, mudar o alvo do arqueiro e outros detalhes. Os gráficos eram belos para a época, e como são apenas um suporte à história e ambientação do jogo continuam não fazendo feio hoje em dia. A resolução é baixa e os efeitos são feios, mas o design do jogo se sobressae sobre tudo isso.

O realismo e a liberdade de Baldur’s Gate criam uma imersão única. Não há necessidade de CGs grandiosas e longas para passar emoção. O jogador vai se ligando ao personagem a ponto de sentir o que o personagem sente. E o modo de jogar vai mudando de pessoa pra pessoa. O jogo é perfeito para quem gosta de explorar, combater ou interpretar – ou ainda uma mistura agradável de tudo isso. Depois de algumas horas o vício impera e o jogo fica marcado como uma verdadeira obra de arte em bits.

E Minsc é o melhor personagem de qualquer cRPG. Não importa o quando se procure, nada é tão legal quanto o guerreiro burro com  um hamster espacial gigante miniatura chamado Boo. Algumas das frases geniais de Minsc:

(to his pet hamster Boo, when battle is imminent): Go for the eyes Boo, GO FOR THE EYES!! RrraaaAAGHGHH!!!

Cities always teem with evil and decay. Let’s give it a good shake and see what falls out!

Fool me once, shame on you; fool me twice, watch it! I’m huge!

PS: Meu objetivo não é criticar os jogos japoneses. Eu citei várias coisas que me enjoaram nos jRPGS- depois de centenas de horas jogando. São jogos bem diferentes, mas divertidos, e certamente vou voltar a jogá-los assim que tiver tempo.

Caso queira comprar, Baldur’s Gate The Original Saga funcionando liso no Windows XP/Vista/Seven + expansão Tales of the Sword Coast + trilha sonora + diversos mimos custa somente US$9.99 no gog.

O site nacional Avengers of Balduran possui um acervo incrivel em vários cRPGs. De Baldur’s Gate ha a tradução total do jogo, da continuação e de todas as expanções em português, detonado, comparação de personagens, descrição de feitiços… É muita coisa mesmo, material de dar inveja em muitos sites gringos. Vale muito a pena dar uma conferida.

E dá pra jogar até no Dingoo a320, graças ao mago SiENcE que adaptou a Infinity Engine pro portátil, através do programa GemRB

3 comments

  1. Eu simplesmente amo a franquia Baldur’s Gate, e o primeiro jogo já me prendeu por 3 dias direto sem dormir direito quando o conheci pela primeira vez há muitos anos atrás.
    Também comprei no GOG naquela promoção de U$9.90 e não me arrependo, assim que possível vou voltar a jogar, achei ótima a resenha, fez jus ao jogo, parabéns! Bora jogar um dia!

    1. Desculpa a demora pra responder. A vida tá uma loucura aqui :/
      Baldur’s Gate me fez gastar uma grana boa já. Não com ele, porque foi baratinho numa promoção do GOG. Mas porque eu amo tanto a série que comprei vários jogos procurando um sucessor digno. E – não sei se devia me sentir feliz com isso ou não – nunca mais um cRPG teve tanto efeito em mim.
      Eu tenho que roubar horas sorrateiramente dos meus dias pra jogar. Mas numa férias animaria jogar sim, claro. Ou outro jogo do gênero. Estes RPGs são sempre legais de se jogar proseando.

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