Dahna

Dahna – Megami Tanjou (Mega Drive)

Um clérigo reza desesperado para seus deuses em busca de proteção. Sua vila está para ser atacada, e ele não sabe se terá forças para defendê-la. Os primeiros soldados vem, trajando armaduras completas e espadas, e avançam contra o povo humilde e desarmado. Com rajadas de energia pura o clérigo consegue fatiá-los, deixando no chão sangue e um cheiro doce e enjoativo. Mas ele sabe que os soldados não estão sozinhos – força bruta não o preocupa. Majestosa no céu vem voando uma mulher, pura bruxaria e poderes demoníacos. Ela mexe o braço e uma onda de magia atravessa o ar – sutil demais para ser vista, mas eficiente. O clérigo desmaia e é levado pela graciosa dama de vestidos longos. Quando uma jovem guerreira chega para ajudar a vila já é tarde demais. Mas a bela Dahna não vai desistir do salvar o velho clérigo, e ela não está sozinha…

Isto não está escrito no manual ou nem nada do gênero (pelo menos eu acho). É só algo que eu criei, uma descrição do que acontece no começo do jogo. Todos os textos são em japoneses e ele nunca foi traduzido, então eu não faço idéia da história. Mesmo se estivesse em inglês não ia ajudar muito. Meu primeiro contato com o cartucho foi quando eu era criança, uma fita pirata com a label desbotada. Sabia ler e escrever fazia pouco tempo, inglês então era uma barreira intransponível. Mas os símbolos em japonês ajudavam a dar uma aura maior de mistério, e se tem algo em que este jogo se sai bem é a ambientação. Me lembro muito da fascinação que exercia em mim. Passei um tempão tentando desenhar os monstros e criar fichas de RPG pra eles, ou criando uma história de plano de fundo. Jogos de fantasia eram comuns, mas com um certo tom de realismo macabro eram raros. Dahna abusa de sangue e visual gore para criar uma experiência única.

A personagem é pequena na tela, uma jovem loira de roupas brancas. Na primeira fase ela já chega montada nas costas de um enorme ogro. O jogador tem dois tipos de ataques: um que parece um soco, e o outro é simplesmente pular em cima dos inimigos. Mas o ogro não dura muito, e em pouco tempo é destruído pela vilã. Aí Dahna tem que se virar nas espadadas e na magia, o que dá uma sensação de fragilidade grande. Mas só por um certo tempo: ao derrotar um cavaleiro de armadura ela pega o cavalo e sai num galope rápido matando o que está no seu caminho. E mais pra frente é possível até mesmo usar um grifo que solta bolas de fogo do bico, em uma fase estilo shmup. É uma variedade incrível para um jogo que só tem seis estágios. E tudo acontece em um ritmo frenético que torna tudo mais viciante e passa muito bem a sensação de pressa que a protagonista está sentindo.

O clima sombrio ajuda a compor o estilo do jogo.Tudo tem um tom mais escuro, e o céu durante o dia tem uma coloração avermelhada que lembra morte. Os inimigos são anões retorcidos, gárgulas vestindo trapos, anjos caídos, magos corrompidos, guerreiros deformados e outras aberrações. Bem diferente do estilo colorido e saudável da grande maioria dos jogos para Mega Drive.

O jogo é difícil. Há poucos continues – 5 no nível easy – e cada continue equivale a uma vida apenas. Os únicos itens que curam os ferimentos são orbs deixadas por magos, que curam uma barrinha de cada vez. E não há curas entre um nível e outro – imagine derrotar um chefe em Megaman e começar a próxima fase só com o que sobrou da barra de energia… O único jeito de aumentar a barra de HP é subindo de nível, o que se consegue com a XP que se ganha derrotando inimigos. Mas isso acontece raramente, então não ser atingido é fundamental para quem quiser ver o final do jogo.

Infelizmente a ambientação envolvente não faz deste um bom jogo. Os controles são horríveis. O pulo é um inimigo mais feroz que os inimigos, e se acostumar com os enormes saltos é uma tarefa hercúlea. Os oponentes não tem muita variedade, e as fases são curtas. Alguns trechos embora venham de idéias boas são muito mal executados. A parte em que se controla o grifo é um exemplo. A animação é dos personagens é bem feita, mas os cenários são muito repetidos e vários são totalmente estáticos. E as fases finais e o último chefe são deprimentes. A impressão que dá é que o jogo seria cancelado aí resolveram lançar como estava, sem nenhum polimento. O encerramento deixa claro o gancho para uma continuação, mas com a má execução do jogo só com um milagre mesmo.

Dahna – Megami Tanjou é uma tentativa de criar um jogo com uma história de fantasia mais adulta e épica no Mega Drive. E de certa forma conseguiu, embora desfrutar desta história seja mais frustrante que prazeiroso. É o típico caso de jogo que se sai melhor nas screenshots que no videogame.

5 comments

    1. Obrigado. É um jogo que vale a pena conhecer, nem que seja só pra criticar. A tentativa de fazer algo mais sério e cinematográfico é bem interessante :]

  1. Valeu cara!
    Queria lembrar qual era esse game, mas nao lembrava o nome nem a pau, joguei muito no mega
    Digitei no Google, “mulher montada monstro mega” e achei aki, Valeu e Abraço!

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