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Doze Contos Peregrinos – Gabriel Garcia Márquez

Um amigo meu viciou com Gabriel Garcia Márquez. Eu já tinha ouvido falar dele, claro, e já tinha até mesmo visto um documentário sobre seu livro mais famoso na TV Cultura. Mas ler mesmo nunca tinha lido nada. Então um dia estava no centro da minha cidade, com um compromisso marcado para dali a duas horas. Pouco tempo para ir em casa e voltar, mas muito tempo para ficar à toa. Passei no sebo pra comprar um livro, de preferência de contos. Achei este do Garcia Márquez, e passei uma ótima hora lendo numa praça. Eu sinceramente não sabia o que esperar do livro, fui de mente aberta mesmo. Fui terminando ele aos poucos, um conto por dia.

Pelo que li depois este não é um livro muito representativo do que tornou o autor famoso. Mas eu prefiro aprender sobre autores por mim mesmo do que pegar análises. Os contos deste livro são todos sobre latino-americanos na Europa. Não a Europa pasteurizada e padronizada dos panfletos turísticos, ou da idealizada em filmes-propaganda como Vicky, Cristina Barcelona. É uma Europa mais misteriosa, onde cada cidade tem suas características próprias. São únicas. E os protagonistas não são heróis belos, mas pessoas comuns, muitas vezes de profissões descriminadas ou artistas. Vou dizer o que achei, mas sem contar sobre a trama, já que ir montando os acontecimentos é uma das graças de qualquer livro de contos.

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O primeiro conto, “Boa Viagem Senhor Presidente”, já me cativou. É fácil falar de política e esquecer de pessoas. E em um conto, com seu espaço limitado, é difícil criar personagens que não pareçam clichês. Neste conto o autor mostrou sua capacidade. Os personagens são críveis, passam por mudanças e a trama política por trás de tudo dá uma cor especial ao conto. Sinto que perdi muito por não conhecer a história da Colômbia, mas só o que peguei foi o suficiente para marcar.

“A Santa” é uma história com um pano de fundo religioso profundo. Não do estilo de histórias para aquecer o coração. Mas sim do estilo que religiões existem e portanto são fundamentais em certas histórias. Aliás religiões são um elemento recorrente neste livro. Outro elemento recorrente é que o universo é indiferente. E este conto, embora tenha um final previsível, é um bom exemplo de ambos os temas.

“O Avião da Bela Adormecida” é belo e tocante, mesmo com o enredo incrivelmente simples. Acho que muita gente, os mais românticos e poetas principalmente, divagam quando entram em contato com pessoas desconhecidas. Então é possível se apaixonar por alguém no ônibus, imaginar uma vida a dois, ou a sensação de seu beijo, e ver a pessoa se distanciando ao descer em um ponto e sumir da sua vida. O conto é sobre esta sensação, e é lindo.

“Me Alugo para Sonhar” tem um forte misticismo, que o leitor decide crer ou não. E coincidências. Gosto de histórias assim, mas esta estória desapareceu rapidamente da minha mente após ter sido lida. Como um sono.

“Só vim Telefonar” é o melhor conto do livro. Se alguma história realmente mostra nossa insignificância perante o acaso é esta. É realmente incrível, muito bem montada e assustadora. Se eu pudesse recomendar a alguém apenas um conto deste livro seria este.

“Assombrações de Agosto” e “A Luz é Como a Água” são os mais fracos pra mim. Ambos estão um tom acima em termo de ambientes. Se os outros se comportam mais como crônicas estes são respectivamente um pequeno conto de fantasmas e um pequeno conto poético. Comparado com a habilidade em fazer o mundano emocionar eles parecem bobos.

“Maria dos Prazeres” tem um ideia tão legal que vou fazer uma exceção e comentá-la. Uma prostituta idosa resolve já se preparar para sua morte e compra uma vaga em um cemitério. Durante o conto ficamos sabendo de sua vida nada ideal, de solidão e de resignação. É uma personagem muito humana e marcante.

“Dezessete Ingleses Envenenados” tem um final previsível, mas um cenário interessante onde a história se desenvolve. Ainda assim é fraco comparado com os outros contos. Já “Tramontana” é melhor, e passa bem aquele deslumbramento místico e supersticioso tão comum em áreas afastadas.

“O Verão Feliz da Senhora Forbes” é muito bom e marcante. Deve ser apreciado com calma, talvez até relido. É um contraponto a figura clássica da babá severa, e da educação vitoriana. O livro, que começou com contos excelentes e foi decaindo, retoma aqui o fôlego para um bom final.

Temos então “A Luz é Como a Água”, já comentado, e o conto final, “O Rastro de Teu Sangue na Neve”. Este conto tem um final muito previsível, um acontecimento bobo, mas é ótimo na sua criação de personagens e situações. É de uma sinceridade e simplicidade impressionante, e os personagens, por mais bobos que possam parecer à primeira vista, são críveis.

Todos os contos tem datas em que foram escritos, o que é um toque legal. Mas não tem comentários do autor, algo que eu já me acostumei. Pelo menos há uma boa introdução. Eu gostei do livro, e gostei do Gabriel Garcia Márquez. Lerei mais dele no futuro, com certeza. Talvez Memórias de Minhas Putas Tristes. O título inusitado sempre me agradou.

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4 comments

    1. A minha avo me ofereceu este livro para o Natal e gotesi imenso desta historia que destaca as palavras duma criane7a em frente e0 credulidade e a convenieancia dos adultos que tinham entrando no falso jogo de dois bandidos, unicamente para ne3o arriscar de perder cre9dito aos olhos dos outros. A espontaneidade fresca da infe2ncia e9 muito valorizada neste conto porque e9 uma criane7a que abriu os olhos dos adultos, e ainda por cima do Imperador, o maior simbolo do estado ! Um pequenito do povo enfrentou todos os crescidos e sobretudo a pessoa a mais importante da sociedade, e0 suas ilusf5es esteriles. Poi e9, as criane7as dizem o que ela veam realmente, as criane7as ne3o se3o capazes de fazer qualquer batota, elas dizem a verdade e podem adjudar certas vezes os adultos e0 perceber quando eles este3o num caminho errado. Os adultos se3o os educadores das criane7as mas pode acontecer que as criane7as dessem umas lie7f5es de verdades e0 certos adultos… Pois, muitos educadores este3o cientes de que a espontaneidade das criane7as e9 um verdadeiro tesoro que constitui uma real fonte de enriquecimento mutuo …………………

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