DeFoe5

A Quadrilogia DeFoe

Depois de uma longa ausência estou de volta, trazendo algo bastante interessante para compensá-la, principalmente se você for fã do Lovecraft ou de adventures point-and-click (se for fã de ambos vai ter um nerdgasmo). Mesmo que você não seja um adepto tão fervoroso assim, ainda recomendo que experimente, pois os jogos de que falo valem a pena. A Quadrilogia DeFoe, que como você já deve ter percebido consiste em quatro adventures point-and-click de terror mas mesmo assim eu falo outra vez, foi criada por Ben ‘Yahtzee’ Croshaw. Apesar do seu tema central ter sido claramente inspirado no Cthulhu Mythos, outros estilos e outras características do terror estão presentes, como mortes típicas dos filmes slasher da década de 80 e diferentes manifestações de fantasmas; você poderá observar muitos aspectos do gênero. Os gráficos são no estilo Nintendinho. Todos os jogos são freeware, e existem edições especiais com alguns extras, que no início custavam cinco dólares e hoje também são freeware. Com certeza você já deduziu quais versões eu baixei. Os jogos podem ser encontrados aqui.

 

5 Days A Stranger

O primeiro jogo é protagonizado por Trilby, um autoproclamado ladrão cavalheiro. Após ter notícia de que a família DeFoe havia morrido, Trilby resolve fazer uma visita de trabalho rotineira à mansão DeFoe. Mal sabia ele que ao entrar na mansão sua vida nunca mais seria a mesma.

Você não tem idéia do quanto o gameplay de 5 Days é intuitivo. Antes de jogar a quadrilogia, eu havia jogado Simon the Sorcerer, que é bom mas mesmo assim tem pequenas falhas: alguns daqueles momentos em que é preciso ter bola de cristal pra descobrir o que o designer queria que você fizesse estão lá, além de certos itens que só servem pra ocupar espaço no inventory e confundir a cabeça do jogador que tenta encontrar uma utilidade para eles. Como 5 Days se passa num espaço pequeno, o desenvolvimento é bem mais fluido. Além disso, a maioria dos itens que já cumpriram sua função some do inventory, permanecendo somente os que ainda vão ser usados. Até na questão dos verbos ele é econômico: existem apenas os verbos ‘andar’, ‘olhar’, ‘usar’ e ‘falar’, que seriam usados até o fim da quadrilogia, com exceção apenas do terceiro jogo por uma razão que você logo descobrirá. O único problema da interface é quando se torna necessário usar dois itens do inventory em sequência: tem que abrir o inventory, selecionar o primeiro item, usar, abrir o inventory, selecionar o segundo item e usar. Todo esse processo às vezes é meio tedioso, mas o próprio Yahtzee veio a admitir que os problemas da interface eram devidos à sua falta de experiência com a engine.

Os outros elementos do jogo não deixam por menos. Como o nome indica, o jogo se passa em 5 dias, e é fantástica a forma como as revelações, tanto do que está acontecendo na mansão quanto do seu passado, foram distribuídas ao longo do tempo e também intercaladas entre si. Os NPCs são igualmente marcantes, e o modo como reagem às situações e ao Trilby mostram um certo distanciamento dos personagens rasos de muitos filmes B por aí –  não é só porque as mortes são semelhantes que os personagens de 5 Days têm que ser idiotas como os personagens desses filmes. Os gráficos são simples, e é exatamente aí que está seu charme: mesmo com algumas cores meio estranhas, pixels relativamente grandes e movimentos um pouco caricatos, não tem como negar que o jogo é bonito. No geral, um excelente ponto de partida para a quadrilogia, e o meu favorito.

 

7 Days A Skeptic

O segundo jogo, que se passa 392 anos após o primeiro, tem como personagem principal o doutor Jonathan Somerset, psicólogo a bordo de uma nave obsoleta chamada Mephistopheles, designada pela Earth Federation para mapear a galáxia Caracus. Certo dia é encontrada uma caixa no espaço. Ao entrar em contato com a Earth Federation, o capitão é orientado a não abrir a caixa e esperar por uma nave devidamente equipada. Mas ele ignora a orientação, traz a caixa para a nave e a abre, com imagens de glória na cabeça.

Este jogo tem uma nova interface, que funciona da seguinte maneira: normalmente, o mouse é um símbolo de cruz,e ao posicioná-lo num objeto com o qual é possível interagir ele se transforma num quadrado e o nome do objeto aparece. Quando o mouse está sobre um desses objetos, um clique com o botão direito do mouse irá abrir o inventory, onde é possível usar o objeto sobre o qual se clicou em conjunto um dos objetos do inventory, ou com os verbos olhar, usar e falar, que também estão no inventory; para andar basta clicar com o botão esquerdo do mouse em qualquer parte do cenário. Lendo pode ser difícil perceber, mas esta interface é muito mais bem elaborada que a anterior. Na parte do gameplay não há muito que dizer, pois tirando essa nova interface e uma paleta de cores diferente para acomodar um cenário diferente, tudo continua o mesmo.

A história é bastante parecida com a do primeiro, com apenas uma diferença crucial: aqui os personagens já se conhecem, pois estão trabalhando juntos há alguns dias. Isso traz para este jogo certos elementos que não existiam em 5 Days, mas também tem suas desvantagens, pois não conhecemos os personagens de forma tão profunda quanto no jogo anterior, e por consequência eu não gostei tanto assim deles. Vale dizer que os dois twists no final do jogo foram ótimas ideias.

 

Trilby’s Notes

O terceiro jogo se passa quatro anos após o primeiro, tendo mais uma vez Trilby como personagem principal. Ele não é mais um ladrão. Dois anos depois do incidente DeFoe foi capturado, e lhe foi oferecida a chance de se juntar a uma divisão secreta do FBI chamada Special Talent Project. Assim ele fez, se tornando um investigador do oculto. Seu novo cargo lhe permitiu investigar mais sobre o caso DeFoe, e ele encontra evidências de que seu trabalho ainda não acabou.

Este jogo se afastou um pouco dos outros, trocando a mecânica point-and-click pela text adventure, mas ainda tem gráficos e é preciso mover o Trilby, nada de Zork aqui. Com o abandono da estrutura point-and-click, o mouse também não é usado, e Trilby se movimenta através das setas direcionais. Os verbos foram igualmente eliminados, o que faz com que as ações sejam mais livres e muda completamente a forma de interagir com o cenário e com os objetos. As conversas também não são as mesmas, pois antes haviam frases padronizadas e agora somos livres para perguntar o que quisermos, o que muitas vezes me levou a elaborar perguntas inúteis e, às vezes, a não saber o que perguntar. Devido a essas mudanças, este é para mim o jogo mais difícil da série.

Também houve mudanças na parte da história, pois é aqui que realmente se começa a entender o que aconteceu nos dois jogos anteriores, a narrativa é bem maior. Outra mudança é que como Trilby já havia passado por uma situação perturbadora antes, o jogo não faz cerimônia e começa a apresentar as bizarrices desde o início, sendo mais ousado na parte visual e especialmente na parte dos efeitos sonoros. Este jogo é o único da série que não segue a estrutura dos dias. É possível concluir que Notes destoa do restante da quadrilogia em várias coisas.

 

6 Days A Sacrifice

O quarto jogo ocorre 196 anos após o primeiro, e nele controlamos Theodore Dacabe, um inspetor de alguma agência governamental (não ficou claro onde ele trabalha, mas esse detalhe não é muito importante mesmo) mandado para investigar irregularidades no QG de uma religião chamada ‘optimology’. A religião, entretanto, é apenas uma fachada para algo muito mais perigoso.

Na parte do gameplay não tenho muito que falar, pois tudo que está aqui já foi visto nos jogos anteriores. A interface é a mesma de 7 Days. Existe mais de um personagem jogável e mais de uma realidade como em Notes. Nenhuma novidade, mas como os jogos anteriores são bons, isso não é uma desvantagem.

Com a história é diferente. Como o último jogo da quadrilogia, 6 Days teve os deveres de amarrar todas as pontas soltas e fornecer uma conclusão decente, e devo dizer que os cumpriu de forma exemplar. A amarração das pontas soltas fez com que esta história tivesse uma atmosfera diferente das anteriores, evocando sentimentos de paranoia, isolamento e ignorância do que está acontecendo de uma forma mais intensa. O final deixa muito para a interpretação do jogador e de início me pegou totalmente de surpresa, mas quanto mais eu pensava mais percebia que tem tudo a ver com o Cthulhu Mythos. Só jogando mesmo pra entender.

 

Muito bem. Agora que você já conhece a quadrilogia, é minha obrigação trazer algumas advertências para evitar spoilers. N° 1, os quatro jogos devem ser jogados na ordem em que aparecem neste post. N° 2, você jamais deve ver os extras ou jogar com os comentários do autor ligados antes de chegar ao final de cada jogo. N° 3, não é recomendado sequer extrair os .rar das três continuações antes de terminar os jogos anteriores. Leva-se de uma a quatro horas pra jogar cada um, dependendo do seu nível de experiência com o gênero. A quadrilogia ganhou muitos prêmios no AGS Awards, que tem como objetivo destacar os melhores jogos feitos com a AGS engine. Pense um pouco: quatro jogos gratuitos e famosos. Tá esperando o quê pra jogar?

2 comments

  1. Os jogos parecem muito interessantes. E o guia pra evitar spoilers é muito útil. Adoro jogos curtinhos, que dá pra terminar em poucas horas. E Lovecraft sempre é divertido.

    Coloca o link dos sites onde dá pra baixar os jogos, Bean :D

  2. @Heider
    Já coloquei o link para uma lista de todos os jogos feitos pelo Yahtzee, no final do primeiro parágrafo. Ele tem outros jogos além da quadrilogia, então não quis linkar só pra ela.

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