BD4

Breath of Death VII

Basicamente, existem dois caminhos que um jogo indie pode seguir. Pode-se criar uma ideia original e explorá-la através de desdobramentos interessantes, como em Crayon Physics Deluxe, Nimbus e Braid. Ou pode-se abraçar incondicionalmente o estilo retro e se destacar pela perfeição na execução, a la Super Meat Boy, Machinarium e Jamestown. Embora existam jogos que não se encaixam em nenhuma dessas categorias ou que misturem um pouco das duas, o quadro geral é esse. E embora ambas as categorias tenham jogos bons, tendo a gostar mais da segunda – Cave Story, com seu gameplay baseado em Metroid e sua simplicidade elegante, é para mim um dos melhores jogos de todos os tempos. Todo mundo tem seus jogos favoritos, certo?

Ao começar a jogar Breath of Death VII, esperava apenas que fosse engraçado, afinal se trata de um paródia de JRPGs e o gênero está lotado de clichês. Imagine a minha surpresa ao encontrar um jogo que me causou uma reação muito parecida com a que tive quando joguei Cave Story.

Breath of Death VII é um JRPG da Zeboyd Games à venda na Steam por três dólares, junto com Cthulhu Saves the World, outro JRPG também feito pela Zeboyd. Os dois jogos também estão disponíveis na Xbox Live Indie Games, só que lá eles são vendidos separadamente, com Cthulhu saindo por três dólares e Breath por um dólar. Um fato interessante é que os jogos saíram na XBLIG antes de saírem na Steam (Breath foi lançado em abril de 2009 e Cthulhu em dezembro de 2010, e o lançamento na Steam foi no mês passado), mas mesmo assim as versões da Steam fizeram a mesma quantidade de dinheiro na primeira semana do que as versões da XBLIG conseguiram fazer em vários meses. Apesar do nome, os Breath of Death de I a VI não existem, o que é uma pena.

Falando do jogo em si, tudo é bem simples, a começar pela história: a humanidade, ao guerrear com armas cada vez mais perigosas, se auto-exterminou e os mortos-vivos reconstruíram tudo, afinal só eles sobraram (não pergunte como eles se reproduzem). Nesse mundo morto, mas bastante colorido, organizado e parecido com a Idade Média, encontramos nossos heróis: Dem, o esqueleto guerreiro; Sara, a fantasma historiadora, Lita, a vampira geek; e Erik, o zumbi príncipe. Dem é o clássico protagonista silencioso, mas nós podemos ver o que ele está pensando, e a Sara também, pois ela consegue ler mentes e atua como uma espécie de intérprete do Dem. A Sara, por sua vez, fala demais; talvez isso seja pra compensar o silêncio do Dem. A Lita, como boa geek que é, se interessa pelo que nós chamamos de tecnologia de ponta, mas como a sociedade ‘viva’ desapareceu as coisas que ela procura são consideradas históricas, o que cria uma mistura interessante de fantasia e ficção científica. O Erik só quer ser um bom membro da party; um traço interessante é que a sua obsessão por cérebros é tão grande que até o atrapalha a falar. Tive a impressão que ele foi o personagem que recebeu menos atenção ao ser criado.

Os gráficos são idênticos aos que a gente encontrava nos RPGs de Super Nintendo, com tudo que isso acarreta: um world map dividido em quadrados nos quais os personagens andam, montanhas e árvores exatamente iguais pelo jogo inteiro, etc etc. As músicas são surpreendentemente boas, e algumas delas fizeram eu me lembrar de Death Note, o que é bem apropriado se você parar pra pensar. O humor do jogo é excelente e cheio de referências, mas ambíguo num aspecto: eu não sei se o jogo presta homenagem ou tira sarro do JRPGs; talvez seja as duas coisas. Vale dizer que isso não atrapalha o jogo, é só algo que eu notei. O único fator que realmente atrapalha o jogo são as skill trees. Sempre que os personagens ganham um nível, o jogador deve fazer uma escolha entre duas habilidades diferentes. O normal é que, seja qual for a habilidade que você escolher, o jogo continue no mesmo nível de dificuldade. Infelizmente não é isso que acontece, existem escolhas erradas (principalmente em relação à Sara), se você escolhê-las vai estar se prejudicando, o jogo fica muito mais difícil do que era antes porque os personagens não terão as habilidades adequadas para lidar com as dungeons seguintes.

O sistema de batalhas é rápido. Tipo, muito rápido mesmo. Existem jogos que têm um sistema de batalha deliberadamente lento apenas pra falar que duram 40/50 horas (*cough* Dragon Quest VIII *cough*), mas esse não é o caso aqui: Breath dura de 4 a 6 horas, e se esticasse mais as batalhas poderia tranquilamente durar 15 horas, porém o pessoal do Zeboyd não quis nos fazer de bobos e tornou as batalhas o mais diretas possível. Diversas coisas contribuem para isso: ao final de cada batalha o HP é completamente restaurado e os personagens que morreram ressuscitam, e o MP é parcialmente restaurado de acordo com o número de turnos que a batalha durou, quanto mais turnos menos MP. Além disso, os monstros ficam 10% mais fortes a cada turno que a batalha dura, o que incentiva o jogador a terminar cada batalha o mais rápido possível. Existe também um sistema de hits, que é o seguinte: a cada golpe que a party acerta nos inimigos, o combo count aumenta um ponto, e certos ataques especiais se tornam mais fortes quanto maior é o número de hits.

Breath of Death VII provavelmente nunca vai alcançar o mesmo status de Chrono Trigger ou Persona 4, mas bem que merecia.

One comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *