Arrietty

Karigurashi no Arrietty

Poucos estúdios de animação tem uma lista tão impressionante de obras como o Ghibli. O modelo de mercado deles não se baseia na produção de séries, e sim em filmes. Com apenas um grande lançamento por ano o estúdio precisa de grandes bilheterias para manter o orçamento no verde. Já com idade avançada os dois fundadores do estúdio tem apostado em novos talentos para manter o Ghibli vivo, e nesta linha Toshio Suzuki dirigiu o filme Kagurashi no Arrietty, que estreou nos cinemas japoneses em Julho de 2010.

Não que Toshio seja um novato na área de animação. Embora seja seu primeiro grande trabalho como diretor ele é um animador experiente, que trabalhou em diversas obras de destaque como in-between animator e key animator. E isso se reflete no filme: a qualidade da animação de Arrietty se destaca até nos altíssimos padrões do filme do Ghibli.

O roteiro é baseado no livro de fantasia juvenil The Borrowers, de Mary Norton, e foi adaptado por Hayao Miyazaki e Keiko Niwa. O filme começa com a chegada de um jovem chamado Sho à casa em que sua mãe foi criada. Seus pais são divorciados, ele quase não vê o pai e a mãe está viajando a negócios. O garoto nasceu com um grave problema cardíaco, e foi para a casa tranquila descansar e se preparar para uma cirurgia. É um jovem gentil e quieto, que passa a maior parte do tempo lendo.

Nesta casa vive uma família de pessoas minúsculas, com poucos centímetros de altura, que pegam coisas dos humanos normais para sobreviver. A vida dos pequeninos não é nada fácil, já que animais como sapos e gatos podem ser mortais. Eles sobrevivem com muita engenhosidade, vivendo do jeito mais ladino que conseguem. Até mesmo humanos são um grande perigo, e por isso se forem vistos eles se mudam com medo de serem capturados.

Arrietty é uma dos pequenos, filha do casal Homily e Pod. Em sua primeira excursão pela casa dos humanos ela é vista por Sho, e a partir daí a vida de ambos altera. Seu pai Pod acha que é melhor dar tempo ao tempo e ver como tudo vai se desenrolar, mas sua mãe fica com medo e quer sair da casinha que tanto gosta. Já Sho tenta ganhar a confiança da energética Arriety.

Além disso há a empregada Haru, doida para descobrir os pequenos, a tia-avó de Sho, chamada Sasako, e um pequeno mais selvagem chamado Spiller. Eles são os únicos personagens do filme, mas são muito interessantes e bem trabalhados. É impressionante a profundidade e o cuidado com que são apresentados, mesmo os que não aparecem por mais que alguns minutos. É fácil se deixar emocionar com os problemas dos personagens, de tão carismáticos que são.

A parte técnica é incrível. Há muitas plantas, em um deslumbre que deixa pra trás Mononoke Hime. Kagurashi consegui fazer com a vegetação o mesmo que Ponyo fez com o mar. O visual é magnífico e encantador. Os móveis e o interior da casa são belíssimos, cheio de detalhes e muito bem trabalhados. São baseados em designs europeus, em particular da Inglaterra. Assim como a arquitetura também é européia. Fora o nome dos personagens e o estilo do traço há pouco de oriental no filme. Os equipamentos que os pequenos criaram também são um deleite. Não há nenhum estúdio que dê tanta atenção aos detalhes quanto o Ghibli, e isso ajuda a deixar ainda mais impressionante pequenos e sua vida cotidiana.

A trilha sonora também é muito bela. Não foi composta por Joe Hisaishi, como seria habitual, mas por uma francesa chamada Cécile Corbel. É ela que canta a excelente música tema em francês, inglês e japonês. Há um sentimento de nostalgia e tranquilidade na sua harpa que cai como uma luva no estilo onírico do filme. Os efeitos sonoros são muito bem feitos, e ajudam na muito na imersão. Sons pequenos e que normalmente não merecem muito destaque como relógios e passos atingem grandes proporções do ponto de vista dos pequenos.

É um filme com ritmo lento, mas que flui bem e é tocante na medida certa. Há várias alegorias sendo feitas, em particular ao caráter controlador e destrutivo do ser humano. E um grande final fecha tudo com chave de ouro. Kagurashi no Arrietty é sem sombras de dúvida um grande acerto em todos os aspectos, e a prova de competência de um jovem diretor que tem muito ainda pela frente.

3 comments

  1. Assisti a Karigurashi no Arrietty essa semana. Fui esperando algo bem parecido com os outros filmes que assisti do Hayao, mas atenta que ele não era o diretor. Confesso que fiquei meio triste ao final do filme. Se essa foi a intenção, então ele acertou.

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