"Minha condição humana me fascina."

Como Vejo o Mundo – Albert Einstein

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Albert Einstein praticamente dispensa apresentações. Conhecido como um dos maiores gênios do último século, em especial por sua teoria da Relatividade Geral, houve muito mais do que física teórica ocupando sua mente. Em seu livro “Como vejo o mundo” (The World as I See It), publicado em 1949, Einstein esclarece sua opinião sobre diversos assuntos. Dentre eles há textos, cartas e transcrições de discursos sobre a guerra, a ciência, a religião. Ele fala ainda sobre seus conceitos e propostas na política e na economia mundiais. No último capítulo ele explica a sua teoria tão famosa, citando ainda questões pessoais relacionadas ao desenvolvimento dela, abordando inclusive aspectos epistemológicos.

Capítulo I – Como vejo o mundo

A primeira frase do livro, na minha edição com a tradução de H. P. de Andrade, é: Minha condição humana me fascina. Nessa parte Einstein fala sobre seus conceitos acerca da própria existência, do sofrimento e da responsabilidade. Para ele o sentido da vida é identificar-se com outras sensibilidades semelhantes a dele e perseguir esse ideal inacessível na ciência e na arte, embora questione se realmente faz sentido perguntar-se qual o sentido da vida. Comenta sobre sua manifestação contra a Rússia soviética e contra a Itália fascista.

Ele ainda afirma seus conceitos sobre a religião e a ciência, tendo a religião como um processo de origem humana, repleto de ‘fantasmas’ originados de sentimentos e representações sociais. Mas ainda assim explica que muitos dos gênios religiosos se distinguem por uma religiosidade frente ao cosmos, independente de dogmas e de deuses semelhantes ao homem. Para ele o papel da ciência é o de manter essa ideia na sociedade. Aparentemente ele não nega a existência de um deus criador, mas nega veementemente um deus que interfere nos processos naturais e que recompensa ou castiga.

Há nesse capítulo uma carta ao ministro italiano na época do fascismo, pedindo que aconselhe Mussolini a evitar a necessidade de um juramento de fidelidade dos cientistas italianos ao fascismo. Há também uma carta a uma professora e outra em admiração aos alunos japoneses, citando uma visita de Einstein ao Japão. Ele encerra a carta assim: Eu, o velho, e de muito longe saúdo os alunos japoneses: possa sua geração nos humilhar um dia!

Por fim, temos a transcrição de vários discursos e artigos em que Einstein homenageia H. A. Lorentz, importante físico holandês, Joseph Popper-Lynkaeus, Arnold Berliner, G. B. Shaw e Bertrand Russell.

Capítulo II – Política e pacifismo

Nesse capítulo Einstein demonstra com muita ênfase sua posição a favor do pacifismo e do desarmamento internacional. Ele afirma que esse desarmamento só ocorrerá se for um ato em conjunto, por parte de todos os países, mas reconhece que isso é muito difícil de ser alcançado. Ele se justifica em relação a bomba atômica e se manifesta contra o serviço militar obrigatório, algo que para ele deveria ser extinto.

“Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiencias de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Eu o disse. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi portanto minhas responsabilidades.”

Há ainda uma carta a Sigmund Freud, parabenizando-o por suas obras que, na visão do físico, explicam a relação entre os instintos de luta e de afirmação de vida. Ele ainda expõe ideias para resolver os confrontos entre países, como a submissão deles a uma comissão internacional, capaz de dirimir os conflitos de forma imparcial.

Capítulo III – Luta contra o Nacional-Socialismo

Esse capítulo conta com diversas cartas e cartas-respostas entre Einstein e academias de ciências.

Capítulo IV – Problemas judaicos

Nesse capitulo Einstein mostra sua visão sobre o judaísmo e questões relacionadas, inclusive por causa da II Guerra Mundial. Ele afirma inicialmente que o judaísmo trata da moral, baseado na Torá e no Talmude. Para ele a concepção judaica se embasa no direito a vida para todas as criaturas. O judaísmo, nas palavras do físico, não é uma fé ou uma religião transcendente. Diz ainda que em sua opinião servir a Deus e servir a vida são atos equivalentes.

Einstein também reafirma sua posição na luta contra o anti-semitismo, bem como um discurso sobre a construção da Palestina.

Capítulo V – Estudos científicos

Nesse último capítulo o autor apresenta diversas referências a importantes marcos da ciência de sua época. Inclusive seu discurso no aniversário de sessenta anos de Max Planck. Ele explica ainda sobre o método e os princípios da física teórica, bem como sua jornada no trabalho com a teoria da Relatividade Geral. Ele explica que teve de questionar diversas “verdades” da física, até perceber que elas simplesmente não se aplicavam a todos os casos.

Não é necessário ser um gênio para entender as explicações dele, mas também não posso dizer que entendi completamente. Algumas afirmações são referências a leis, teoremas ou teorias da física e não são explicitadas.

Independente da parte sobre a física, percebemos que não somente as variáveis e constantes das equações ocupavam a mente do físico, antes disso ele foi um grande humanista. Pelo livro eu consideraria que ele aproveitou sua posição influente para dizer muito mais do que E = mc2. Ele não só defendia suas ideias como tentava mostrá-las, o que é percebido pelas inúmeras cartas.

"Minha condição humana me fascina."
“Minha condição humana me fascina.”

Em alguns pontos o livro se mostra enfadonho, como se fosse um homem que gosta de contar as histórias da própria vida. Ele dialoga com amigos cujo nome não revela mas, em alguns pontos chega a ser repetitivo. Não por apresentar as ideias de forma redundante, mas sim por ter diversos discursos sobre o mesmo assunto. Admito que li rapidamente alguns parágrafos, quase saltando-os.

Já em alguns pontos que eu possuía mais interesse, o texto se mostrava curioso (aparentemente não um gato, mas um livro de Schrödinger: a importância do leitor). Já foi inusitado ver Einstein como um indivíduo tão completo e, além disso, com tantas boas propostas não levadas a sério. Sua opinião, por exemplo, sobre o judaísmo foi uma surpresa. Eu imaginava que ele fosse um judeu radical, por sua preocupação com o tema, ou ateu, favorecido pelo seu envolvimento com a ciência, mas nem um ou outro. Antes pelo contrário. Assim como ele afirma que embora aparentem ser contrastantes, ciência e religião não necessariamente são extremos.

Abaixo estão algumas das melhores frases e parágrafos que achei do livro. Tentei apresentar aqui somente aqueles que não necessitam de um contexto específico. Apesar de serem trechos da opinião de um homem em determinado momento de sua vida, são capazes de nos fazer refletir.

  • Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
  • A violência fascina os seres moralmente mais fracos.
  • Quem fez a experiência de pensar em outro domínio sobrepuja sempre aquele que não pensa de modo algum ou muito pouco.
  • Existe um contraste grotesco entre as capacidades e os poderes que os homens me atribuem e aquilo que sou e o que posso.
  • Porque é um sinal encorajador em nossa época, tida por tão materialista, que transforme homens em heróis, quando as finalidades de tais heróis se manifestam exclusivamente no domínio intelectual e moral.
  • Protestar hoje contra os armamentos não quer dizer nada e não muda nada. Só a supressão definitiva do risco universal dá sentido e oportunidade a sobrevivência do mundo.
  • Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos.
  • Enquanto não os atrapalho, os homens me elogiam. Mas se tento defender uma politica desagradável a seus olhos, insultam-me e caluniam-me a fim de protegerem seus interesses.
  • Um pacifismo que só ataque as políticas de armas dos Estados é impotente e permanece impotente.
  • (em uma conferencia sobre desarmamento) O Estado foi criado para os homens e não o inverso. Pode apresentar o mesmo arrazoado tanto para a Ciência quanto para o Estado.

Aforismos para Leo Baeck:

  • O esforço para unir sabedoria e poder raramente dá certo e somente por tempo muito curto.
  • O homem habitualmente evita reconhecer inteligencia em outro, a não ser quando, por acaso, se trata de um inimigo.
  • Poucos seres são capazes de dar bem claramente uma opinião diferente dos preconceitos de seu meio. A maioria é mesmo incapaz de chegar a formular tais opiniões.
  • A maioria dos imbecis permanece invencível e satisfeita em qualquer circunstância. O terror provocado por sua tirania se dissipa simplesmente por sua distração e por sua inconsequência.
  • Para ser um membro irrepreensível de uma comunidade de carneiros, é preciso, antes de tudo, ser também carneiro.
  • Os contrastes e as contradições podem coexistir de modo permanente numa cabeça, sem provocar nenhum conflito. Esta evidencia atrapalha e destrói qualquer sistema politico pessimista ou otimista.
  • Quem banca o original neste mundo da verdade e do conhecimento, quem imagina ser um oráculo, fracassa lamentavelmente diante da gargalhada dos deuses.

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