Hum... Essa história está meio diferente de como eu me lembrava...

Drácula Morto-Vivo – Dacre Stoker, Ian Holt

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Passeando por uma livraria, sem qualquer intenção de realmente comprar alguma coisa, percebi que havia perto de mim um livro de capa preta com letras garrafais vermelhas na capa. Drácula o Morto-Vivo. O título imediatamente me pareceu tão interessante quanto um pesadelo. Revisitar, reescrever ou refazer a história original de Bram Stoker aparentava ser um pecado. Além disso provavelmente era um livro encomendado, escrito por algum escritor-fantasma a pedido de editores. Mas as letras brancas na parte de baixo da capa, que estampava um morcego sob uma luz fraca, diziam: A sequencia do clássico de Bram Stoker. Era o que eu temia! Talvez fosse até pior do que o Sherlock Holmes que se vê arrastado por diferentes escritores atuais, como se roubado de Conan Doyle. Um nome acima do título me fez recuar perplexo: um dos autores era Dacre Stoker. Pensei se seria realmente um descendente de Bram Stoker, o irlandês que escrevera o clássico no século XIX. Foi quase um alívio ler que Dacre é sobrinho-bisneto de Bram. Isso tornaria a obra menos forçada – para mim -, como se os personagens pudessem ter sido herdados.

Drácula o Morto-Vivo é na verdade uma tentativa de redenção. Tanto da família Stoker quanto do personagem título. A história se passa vinte e cinco anos após o livro original. Com esse tempo, os personagens puderam ser moldados com mais facilidade pelos autores, Dacre Stoker e Ian Holt, o que dava a eles mais liberdade na escrita.

A história começa com uma carta de Mina Harker ao filho, Quincey Harker, explicando – e resumindo – os acontecimentos em Drácula. Após isso acompanhamos o Dr. Jack Seward, que se tornara um caçador de vampiros viciado em morfina. Ele está engajado em caçar uma vampira nobre na Espanha: Elizabeth Bathory. Essa condessa é uma referência à verdadeira condessa húngara Bathory, cujo nome entrou para a história por ter tomado banhos no sangue de camponesas acreditando ser esse o elixir da juventude. A personagem do livro não é diferente e as descrições de seus atos, pareadas aos relatos de seu homossexualismo explícito, torna-a mais próxima do conceito de vampiro entregue aos prazeres carnais. Ao mesmo tempo vemos a situação de Quincey Harker, estudante de direito na França mas infeliz com a profissão. Ele sonha ser ator, apesar da desaprovação do pai. Jonathan Harker é um velho, gordo, alcoólatra e desiludido advogado. Ele busca afogar suas mágoas em álcool, brigas e mulheres. Harker não suporta o fato de ter sido traído por Mina, que até então parece nutrir sentimentos ambíguos por Drácula, chamando-o durante sonhos. Wilhellmina não envelhecera nos vinte e cinco anos, fato que assusta o marido lembrando-o constantemente de como Drácula interferiu em suas vidas. Já Arthur Holmwood se tornou recluso, tendo engajado em um casamento por motivos políticos. Ele se arrepende amargamente da morte de Lucy e culpa o professor Van Helsing pelo que aconteceu. O professor, por sua vez, está com a saude frágil, mas isso não o impediu de ter feito de Seward seu aprendiz nas artes ocultistas.

A partir desse cenário, temos o estranho assassinato de Seward, o que leva o grupo de antigos amigos a duvidar da morte de Drácula na Transilvânia. Adicionaram-se ainda outros personagens a essa atmosfera de medo. O inspetor Cotford, que trabalhara no caso de Jack Estripador, acredita ter sido Van Helsing o assassino em série. Há ainda Basarab, um ator romeno que nutre pelo príncipe Drácula grande admiração. Com o passar da história os autores conseguem fazer com que mudemos de opinião sobre o fim do livro de Stoker. Às vezes vemos pela narração, em terceira pessoa, que é impossível ao vampiro ter sobrevivido. No capítulo seguinte, porém, passamos a crer assim como os personagens, que ele não poderia estar morto e assim por diante. As peças do quebra-cabeças só mostram no final o que realmente aconteceu, quando vemos quem estava errado e quem estava certo, quem estava aliado a quem e quem não é aliado de ninguém.

Hum... Essa história está meio diferente de como eu me lembrava...
Hum… Essa história está meio diferente de como eu me lembrava…

A forma como a trama é conduzida, explicando o passado dos personagens, seus medos mais profundos e seus raciocínios, é excelente. Em alguns momentos acompanhamos Cotford, após ter descoberto o diário de Jack Seward, em sua investigação sobre Van Helsing e sobre o grupo de amigos. Em outros momentos acompanhamos o próprio Bram Stoker, feito em personagem, que escrevera um livro chamado Drácula a partir de uma história que ouviu de um homem em um pub em troca de bebida. O livro aborda ainda muitas das lendas sobre vampiros que foram criadas pelo cinema. Nenhuma delas sobre eles brilharem.

Vários dos personagens e eventos são históricos ou baseados em fatos e pessoas. Exemplo é a quantidade de nomes em homenagem a atores que interpretaram Drácula no cinema e no Teatro, bem como os integrantes da família Stoker e uma referência no final ao Titanic. Todos as datas foram calculadas para coincidir com os avanços da ciência, a modernização da Inglaterra, os fatos e as pessoas que lá viveram. O livro é fruto de extensa pesquisa, embora para isso a dupla de autores teve de colocar o livro de Stoker baseado na história que ele ouviu, mas alterado em relação ao que conhecemos. Algumas datas do livro Drácula foram modificadas, bem como algumas referências comuns. Uma delas é a diferença no livro entre Conde e Príncipe Drácula. No romance de Stoker ele é um conde, mas o personagem histórico, Vlad Tepes III, foi um príncipe. Em Drácula o Morto-Vivo mostra-se que Stoker alterou as informações em seu livro, mas como se, na “vida real”, o conde fosse o príncipe.

O livro é engenhoso e os autores foram meticulosos na escolha dos personagens e na ambientação, porém peca em alguns momentos. A desconstrução dos personagens em alguns pontos é como uma facada nas costas, como se não fosse o mesmo personagem da trama vitoriana. Vemos os heróis, antes determinados e confiantes, com suas vidas pessoais e profissionais em ruínas. É de sentir pena. A ideia de um romance entre Drácula e Mina é explorada pois o romance de Stoker fora ambíguo quanto a essa possibilidade e aproveita essa oportunidade para questionar tanto os valores da época vitoriana como para denotar os traumas sexuais do casal Harker. No final do livro há ainda uma nota sobre a redenção dos Stoker, pois após perder os direitos autorais sobre a obra, devido a uma questão aparentemente burocrática, a família não tentou dar continuidade a obra ou algo assim. Dacre vê isso como uma questão de honra. É interessante também que Ian Holt, co-autor do livro, contribuiu para a pesquisa por trás do filme Bram Stoker’s Drácula (1992). Há ainda uma explicação dos autores sobre a possibilidade de vampiros serem pessoas que contraíram um “vírus-vampiro”, terem alergia a alho, e outros detalhes que prefiro ignorar. Assim como as Midi-chlorians de Star Wars, foi boa a intenção. Mas só a intenção.

Em resumo o livro se assemelha muito, nas palavras de um amigo meu, a um filme de ação. As reviravoltas na trama são gigantescas e às vezes imprevisíveis. O fato de negar boa parte do livro Drácula pode incomodar também, tal como uma água benta na pele de um vampiro, mas ao mesmo tempo oferece uma nova visão sobre o romance original. É quase como se houvesse uma perspectiva imparcial na narração que diz aos diários e cartas dos heróis que eles foram muito subjetivos. Vale a pena ser lido mais pelo apoio a família Stoker e pelo intenso desenrolar da trama do que pelo final no alvorecer de Whitby.

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