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Lugar Nenhum – Neil Gaiman

Neverwhere-capa

Qual a semelhança entre estações de metrô, Atlântida, poderes mágicos, ratos falantes e um possível apocalipse? A resposta é Neil Gaiman. Em 1996 Neil Gaiman escreveu para a BBC o roteiro de uma minissérie de televisão chamada “Neverwhere”, que foi também adaptada para um livro pelo próprio Gaiman no mesmo ano. Traduzida como “Lugar nenhum”, a obra traz o excelente estilo 50% louco, 50% irônico e 140% envolvente que é típico do escritor.

A história começa com a vida normal de Richard Mayhew. Funcionário engravatado de uma empresa londrina nos anos 90, embora tenha crescido no interior da Inglaterra, ele acorda cedo, pega o metrô, bebe do café ou do chá horrível do escritório, sai com a noiva para se divertir e faz tudo que se pode considerar normal. Uma noite, porém, acompanhado pela noiva e no caminho para um restaurante, ele encontra uma jovem caída na calçada, sangrando. Apesar da insistência de sua noiva, Jessica, para que deixe a garota que mais parece uma mendiga, Richard resolve ligar para a emergência. A garota, semi-consciente, implora para que ele apenas a deixe descansar e que a tire dali pois ela corre perigo. O funcionário pacato acaba aceitando, levando a garota para casa na esperança de protegê-la e cuidar dela, mesmo com Jessica dizendo que isso representaria o fim do noivado.

Na manhã seguinte surgem dois indivíduos misteriosos na porta de Richard, procurando uma garota que dizem ser louca e que, pela foto que eles trazem em um cartaz de “Procura-se”, é a garota machucada. Eles invadem o local, apesar da indignação do protagonista, mas não a encontram. Ela simplesmente sumiu. Quando vão embora, a garota reaparece, mas pede que ele vá procurar um amigo dela. Bondoso, mas um pouco arrependido por se envolver tanto, Richard aceita a tarefa e traz o amigo da garota, chamado Marquês de Carabas. No caminho o Marquês explica que a garota se chama Lady Door, filha de uma importante família para… Londres de baixo. Como se não fosse nada demais, o Marquês leva Richard para uma porta que, magicamente, dá passagem para dentro do armário de faxina do prédio do protagonista.

Existe Londres. E existe “Londres de baixo”, uma espécie de submundo para onde os mendigos e outros indivíduos desabrigados vão. Lá eles podem fazer comércio com desde ratos a seres sobrenaturais mais antigos que a civilização humana. Nessa Londres há nobres, duques, marqueses e condes importantes que governam regiões. Seus habitantes, porém, só podem ser vistos na “Londres de cima” quando interagem com algum indivíduo de cima e, mesmo assim, logo as pessoas esquecem que falaram com eles.

Em seguida, após a vinda do Marquês para levar Lady Door em segurança, Richard percebe que algo está errado. Ninguém mais o vê! Os táxis não param para ele, as pessoas não o notam, nem mesmo a porta do metrô o detecta. O protagonista simplesmente deixou de existir na “Londres de cima” e passou a ser da “Londres de baixo”. Richard perde o emprego, a casa, a noiva (não que já não tivesse perdido Jessica antes) e tudo o que possuía. Ele decide então procurar Lady Door. Ela deve saber como devolver a vida dele. Ou, pelo menos, é o que ele espera.

Ao longo do livro é explicada a recente morte da família de Door pelas mãos dos dois homens que a procuravam e que estavam, na verdade, caçando-a, chamados Senhor Croup e Senhor Vandemar. Assassinos profissionais, ambos foram responsáveis pela Peste Negra e várias calamidades. Door decide então buscar a verdade por trás dos assassinatos e vingança. Para isso contrata Hunter, uma lendária guerreira da “Londres de baixo”, como guarda-costas. Há ainda o anjo Islington, que mora nos subterrâneos de Londres e, ao encontrar com Lady Door, pede a ela que lhe traga uma chave especial. Com tal chave, ele poderia ajudar Door em seus objetivos e, ainda, devolver a Richard sua vida normal.

O nome de Door, ainda, não é ocasional, ela pertence a família Portico, onde todos tem o dom de abrir qualquer porta (ou mesmo coisas que não sejam portas ou que não deveriam, em tese, ter capacidade de “abrir”).

Neil Gaiman

No livro Neil Gaiman faz várias brincadeiras com nomes de lugares em Londres. Blackfriars, uma estação e uma ponte de Londres, dá nome também ao local onde os protagonistas encontram Monges Negros; Em Earl’s court eles entram em uma vagão de metrô vazio que, na verdade, leva à corte de um Conde de “Londres de baixo”; Já a ponte Knightsbridge se torna Night’s bridge, uma ponte tranquila na Londres de cima, mas perigosa na de baixo. A ideia do urbano, sujo e subterrâneo formarem todo um novo mundo, incógnito à superfície, é brilhante (o que é um tanto paradoxal devido ao “sujo”) e não deixa a desejar para os fãs de Gaiman. O estilo da narração é pouco descritivo, tão fluido que se passa de uma página a outra (ou de um capítulo a outro) como se o vento soprasse as páginas. Difícil largar o livro enquanto houver qualquer frase não lida.

Além da série de TV de 1996, foi feita uma versão em quadrinhos em 2005. Há ainda uma versão em áudio que foi ao ar na rádio da BBC em 2013, contando com as vozes de Benedict Cumberbatch e Christopher Lee. Apesar do fim da história permitir uma continuação e de já ter tido várias ideias para elas, Gaiman comentou que não pretende escrever uma sequência.

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