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O Anatomista

Desde antes de ingressar em uma universidade, tenho mantido comigo um caderno no qual anoto sugestões de livros, filmes e qualquer outras informações sobre as quais eu queira pesquisar depois. Em uma das aulas na faculdade, acho que ainda em 2012, certo professor recomendou que procurassemos ler o livro “O Anatomista”, de Federico Andahazi. Agora, quase um ano depois, eu finalmente consegui esse título, tendo encontrado-o por acaso boiando em um sebo, entre um mar de outros livros. É pequeno, menos de 200 páginas e com linhas bem espaçadas. Na capa vê-se detalhe do quadro de Dürer, “Adão e Eva”.

A história de Andahazi tem como protagonista Mateo Realdo Colombo, professor de anatomia e cirurgião na Universidade de Pádua em 1558, catedrático que substituiu Vesalio (um dos “pais” da anatomia). O professor, entretanto, faz uma descoberta que acaba por valer-lhe um julgamento pelo tribunal da Santa Inquisição. Outro importante personagem é Mona Sofia, a mais bela prostituta do ocidente e a mais bem cotada de Veneza. Tendo sido sequestrada e vendida para uma escola de prostitutas quando bebê, onde cresceu, a profissão valeu-lhe rios de dinheiro vindos de ricos clientes. Sua vida é retratada pelo autor por meio tanto de cenas tristes quanto picantes. Em uma festa obscena em um palácio, o anatomista conhece a prostituta e, para sua infelicidade, por ela se apaixona. A terceira importante personagem é Inez de Torremolinos, mulher nobre que após a morte do marido dedicara a vida a caridade.

O livro desenrola-se no inicio lentamente, contando passagens da vida de cada um dos três personagens citados acima, chamados de uma “trindade”. Essa parte é um pouco vagarosa, mas ajuda na construção da identidade de cada um deles pelo autor. Há um caso interessante que cita o uso de ervas alucinógenas na subida do monte da Acrópole em Atenas por Mateo, durante uma viagem a Grécia, descrevendo as visões fantásticas que ele teve. Nesse ponto ele passa a ver-se como diversos personagens da mitologia grega e a exalta. Alucinação renascentista, eu diria.

Mais adiante na história o anatomista é convocado a ir até Florença, tratar de Inez de Torremolinos que estava doente. Ele, como cirurgião e médico, ordenado por uma autoridade, vai até ela. Durante o tratamento, que incluía vários exames físicos, ele acaba por descobrir um órgão na mulher, que passa a chamar Amor Veneris. Atribui a ele o controle sobre ela, bem como a origem de suas paixões e, por fim, argumenta eloquentemente sobre porque tal fato anatomico permite concluir que as mulheres não possuem alma. Tendo medo de que esse conhecimento caia nas mãos do demônio, o reitor da universidade de Pádua acusa o anatomista perante a inquisição. Ele, entretanto, queria usar sua descoberta para conquistar o coração de Mona Sofia.

Embora o desfecho tenha sido apresentado lentamente ao leitor e ainda de forma metafórica, não deixa de surpreender por, principalmente, dois motivos: a forma crua com que é narrado, escorrendo sofrimento pelas palavras; e pela maneira seca e pouco emotiva, retratando bem o sentimento de indiferença, vivida em época de guerras e peste, frente a morte. A descrição dos ambientes é pouca, quase tudo gira em torno dos eventos e do lado psicológico dos personagens. Mas o autor sabe, sem dúvida, usar as palavras de forma sarcástica e mordaz, o que dá um “tempero” a leitura.

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