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O Castelo – Franz Kafka

Em uma das muitas visitas que fiz a livrarias, quase à meia-luz típica de tais estabelecimentos quando querem se fazer requintados, encontrei sobre uma pilha de livros desarrumada, uma edição integral da Abril de “O Castelo” (Das Schloss), escrito por Franz Kafka. Não resisti a comprar aquela preciosidade de capa dura e preta, com letras douradas e do tamanho de um pocket.

Nascido em 1883 na cidade de Praga, Áustria-Hungria (atual República Tcheca), o autor é bem conhecido pelo estilo surreal de suas histórias. Exemplo disso são “O Processo”, o tão conhecido “A Metamorfose” e, claro, “O Castelo.” No primeiro ele trata de um indivíduo que está sendo processado mas nunca lhe é revelado o porque. Já no segundo narra a história de um homem que se transforma em uma criatura semelhante a um inseto. Essas duas histórias foram produzidas por volta de 1915, quando a primeira guerra mundial já começara a assolar a Europa.

O Castelo, entretanto, teve sua produção iniciada em 1922, dois anos antes da morte de Kafka, e foi publicado postumamente. Assim como outros trabalhos, não foi terminado e há dúvidas se ele o terminaria caso tivesse mais tempo. A história foi interpretada de diversas maneiras. Uma delas, que para mim é a mais condizente após ter lido o livro, é a de que se trata de uma crítica a burocracia. Isso é perceptível pelas diversas dificuldades enfrentadas pelo protagonista serem por causa de documentos, formulários, protocolos… etc. Uma análise mais aprofundada, porém, permite perceber que sob essa camada de burocracia, o autor lida com questões simples como a incapacidade de resolver questões oficiais, solidão, discriminação, ignorância, emprego, segurança e bem-estar.

No primeiro dos 25 capítulos do livro é narrada a chegada do protagonista a vila. Ele, entretanto, não tem seu nome revelado em momento algum, sendo chamado por todos apenas pela inicial “K.”. O personagem fora contratado como agrimensor pelo Castelo, pertencente a um conde. Tal informação é confirmada pelos funcionários do nobre, mas, estranhamente, nenhum trabalho específico é designado a K. e nem lhe é permitido ir ao Castelo. São enviados a ele dois assistentes, Arthur e Jeremias, que acabam irritando e atrapalhando frequentemente o agrimensor ao, inocentemente, desobedecê-lo ou ignorar suas ordens. Em meio a tal situação, ambientada em uma vila pobre e nevada, ele deposita suas esperanças em Barnabás, mensageiro do Castelo que poderia ser sua ligação com os blindados funcionários. O protagonista acaba se envolvendo com Frieda, garçonete de uma taverna, que deixa seu emprego para ficar com K. O romance surge após uma noite de amor no chão sujo da taverna e cresce de uma forma um pouco artificial, quase doentia. O agrimensor então descobre que Frieda era amante de um funcionário de alto escalão, chamado Klamm, e tenta, sem sucesso, falar com ele para que possa resolver sua situação. Após consultar o prefeito do vilarejo, que afirma que tudo não passa de um mal entendido e que um agrimensor não é necessário, K. aceita trabalhar como zelador na escola da vila enquanto tentará, diversas vezes, encontrar uma brecha nos protocolos que o impedem de exercer sua profissão. Durante todo o tempo o protagonista, imerso em um ambiente hostil de dificuldades, indiferença e burocracia, é acusado de ir contra os costumes da vila, mesmo que isso nunca tenha sido explicado a ele previamente, podendo apenas ouvir tais críticas. Surgem traições, burocracia, mentiras e outros diversos elementos que constituem o fundo tenso e cheio de aflição pelo qual passa K.

É interessante notar que o Castelo é citado como algo distante, como se lá fosse um mundo diferente, onde tudo funciona com base nos perfeitos protocolos. A construção é retratada de forma misteriosa, envolto em neblina e com um silêncio sepulcral. Uma silhueta recortada no horizonte. Contudo, seu interior mal é descrito e a autoridade do conde raramente é mencionada.

O livro vale a pena pela experiência, pois é sem dúvida um sabor singular, completamente diferente de qualquer outro que já li. Embora possa ser um pouco cansativo pelas extensas e densas falas, as situações são tão incomuns que, nem que seja por sentir-se desafiado, tem-se vontade de chegar ao final do livro.

Diversas adaptações da história foram feitas. Há um filme alemão de 1968, um de 1997 e uma adaptação russa de 1994.

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