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Lud-in-the-Mist – Hope Mirrless

A primeira vez que ouvi falar de Lud-in-the-Mist certamente foi devido a um comentário do Neil Gaiman. Ele frequentemente cita este livro como seu favorito. Sabe quando você nunca tinha notado algo, e de repente começa a reparar que você sempre teve certo contato com esta coisa? Como quando você procura o significado de uma palavra no dicionário, e a partir de então começa a ver ela escrita por todo lugar? Aconteceu isto comigo em relação a Lud-in-the-Mist. O livro é citado como influência para Suzanna Clarke, autora de Jonathan Strange & Mister Norrel. Está na coleção Ballantine Adult Fantasy Books e também na Fantasy Masterworks. Quando entrou em promoção na Kindle Store eu não pensei duas vezes, e fiz a compra.

Quando se pensa em um livro de fantasia há coisas que temos por garantido. Por mais que a gente defenda que o gênero não se resume a clichês, eles são muito presentes. A jornada de um menino para se tornar homem. Guerras. Alguém quer usar algum item mágico para o mal. Escapismo. O herói é desacreditado pela sociedade, e só seus amigos diretos o apoiam o veem a importância do que está fazendo. O próprio clima de aventura. E por aí vai.

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E Lud-in-the-Mist tudo isto é tão… diferente. O título se refere a capital do país Dorimare. Dorimare faz fronteiras ao oeste com o Fairyland, o país das fadas. E ao leste o país dá para o mar. Há alguns séculos Lud-in-the-Mist era governada pelo Duque Aubrey, um governante amoral e dado a fazer loucuras. Em seu reinado havia um comércio intenso entre a cidade Dorimare e Fairyland. Mas o Duque foi deposto graças ao poder dos comerciantes da cidade, e desapareceu. Eles estabeleceram as leis da cidade, proibiram qualquer coisa relacionada as fadas, ao ponto de não existirem referências oficiais a nada que viesse do oeste.

Lud-in-the-Mist se tornou, com o passar dos séculos, uma cidade extremamente pacata e tediosa. Onde as pessoas não saiam da noite, há muita riqueza e os costumes eram mantidos à risca. O Duque Aubrey se tornou uma lenda, uma figura mística de um passado distante. A única coisa que perturba a serenidade da cidade é a Fruta das Fadas. Esta fruta sempre foi ligada a poesias e visões. Mas seus efeitos também poderiam incluir loucura, suicídios, danças, orgias, e atos selvagens sob a luz da lua. A fruta era amplamente usada nos tempos do Duque, mas é proibida nos tempos atuais. O que não diminuiu seu consumo: ela sempre foi de maneira obscura traficada para dentro da cidade, e tem nos de classes mais baixas assíduos consumidores.

E, antes tarde do que nunca, vale a pena explicar sobre fadas. Enquanto Sininho e companhia domina o imaginário popular com seu tamanho diminuto, inocência e simpatia as fadas de Lud-in-the-Mist pertencem a outra leva. São as fadas originais do folclore europeu, criaturas capciosas e imprevisíveis, que representam perigo e oportunidade a todos que lidam com elas, e exigem respeito e admiração. São criaturas que não podem ser compreendidas e, portanto, são temidas. Em Lud-in-the-Mist elas são chamadas de Povos Silenciosos, e tem certa relação com os mortos. Fairyland é uma terra onde os que vão não voltam.

E quem é o protagonista? Nathaniel Canticler. O prefeito de Lud-in-the-Mist, um senhor ruivo, gordo, na casa dos 50 anos. Ele não é um herói em nenhum conceito, a não ser o de que é o personagem principal de sua história. Canticler é um mercador, vem de uma família tradicional e é uma pessoa pacata e previsível.

Estas capas são fiéis ao livro. A direita, nosso protagonista.
Estas capas são fiéis ao livro. A direita, nosso protagonista.

O estopim da história é quando seu filho, Ranulph Canticler, confessa ter comido da Fruta das Fadas, que lhe foi dada por um serviçal. Então Nathaniel o envia para uma fazenda como recomendação de seu médico pessoal. E ele tenta manter o controle e abafar a situação, mas tudo desaba quando as jovens do colégio para damas da cidade consomem a fruta e saem correndo em direção a Fairyland, onde ninguém tem coragem de entrar.

É um livro de começo lento. Mas antes da metade eu sentia como se já estivesse no final, virando as páginas (ok, passando o dedo na tela do Kindle) com apreensão. O relato bucólico do começo se torna uma história de detetives, e tem seus momentos de perseguições. A prosa da autora, Hope Mirless, é magnífica. Ela gasta tempo montando o cenário, usando metáforas, escolhendo palavras e expressões. Dá a Lud-in-the-Mist uma cultura de tempos remotos. E no meio desta riqueza escrita ela esconde dicas, brinca com o leitor, encanta. É possível ir removendo camadas e aprendendo cada vez mais com cada leitura.

E embora Nathaniel Canticler seja o protagonista muitos outros personagens habitam a capital, e alguns tem capítulos inteiros para si, ou orbitam a história com frequência. Deles talvez meu predileto seja Mestre Ambrose. Em um universo com distinções tão rígidas entre o mundo das fadas e o dos humanos, com uma fronteira tão distinta entre eles, os personagens são maravilhosamente complexos em comportamentos. Palavras como bom ou mal não parecem se aplicar tanto.

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A bela capa original da Fantasy Masterworks a esquerda. E a direita a capa da Ballantine, a edição que popularizou o livro.

Lud-in-the-Mist foi publicado em 1926. 11 anos antes de O Hobbit. E é engraçado pensar como, se ele fosse publicado hoje, continuaria sendo considerado inovador e criativo. Ele escapa dos clichês do fantástico, ao mesmo tempo que anda do lado deles. E ainda bem que vira e mexe é republicado.

Eu vi muitas alegorias sendo feitas em relação ao livro. E elas lidam com assuntos bem sérios. A mais óbvia é em relação a política de guerra as drogas. Esta foi a única que eu pensei, ao lê-lo. Tenho consciência que o ópio e a cocaína já eram problemas na Inglaterra há décadas. Mas vi também alegorias sendo feitas sobre a Primeira Guerra Mundial e sobre o homossexualismo. É uma das vantagens do mundo atual: dezenas de pensamentos diferentes se juntando na internet, e qualquer um pode entrar um pouquinho na mente dos outros.

Não sei de onde vem a capa da esquerda, mas gostei. A da direita não me agradou tanto, parece uma montagem genérica.
Não sei de onde vem a capa da esquerda, mas gostei. A da direita não me agradou tanto, parece uma montagem genérica.

E por último, sobre a autora. Eu deixei esta parte pra trás porque é bem interessante por si só. Hope Mirrless nasceu filha de ricos pais escoceses, em 1887. Ela aprendeu 5 línguas antes dos 30 anos de idade, se formou em uma universidade (algo incomum para mulheres da época) e tinha contato com famosos escritores, como T. S. Eliot e Virginia Woolf. Hope teve como tutora Jane Ellen Harrison, que se tornou uma colaboradora literária e grande amiga. Elas moraram juntas por anos e, alguns especulam, tiveram um relacionamento amoroso. Há controvérsias sobre o relacionamento exato entre as duas, mas fato é que eram extremamente íntimas. Quando Jane Ellen Harrison morreu Hope ficou profundamente abalada. Ela resolveu usar a riqueza de sua família para se isolar do mundo e abandonou a escrita. Lud-in-the-Mist foi, infelizmente, seu último livro.

E, apesar das resenhas positivas na época de lançamento, Lud-in-the-Mist certamente teria se perdido na história. A salvação foi uma republicação, ironicamente sem autorização a autora, na Ballantine Adult Fantasy. O editor Lin Carter achou que ela estava morta, e publicou o livro de qualquer forma, já que ele estava em domínio público. Não se sabe se Hope sequer ficou sabendo da republicação de seu livro. Lud-in-the-Mist virou um clássico obscuro, que sempre é republicado. Embora eu ame o estilo visual das novas capas da série Fantasy Masterworks achei a capa nova de Lud-in-the-Mist muito sem relação com a história. É linda, mas muito sem sentido… E eu devo acabar comprando a edição de Ballantine Adult Fantasy. Com frequência penso em começar a coleciona-los, e acho que não tem modo melhor de começar do que por esta pérola perdida. Infelizmente é o livro com o inglês mais difícil que já li, então será complicado recomendá-lo para os amigos. E uma publicação em português é altamente improvável. Mas pra quem tiver coragem de encarar o desafio as chances são de que ache o livro inesquecível.

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Acho o estilo bonito, mas o artista não deve ter lido o livro…

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