mirrormask

MirrrorMask – Dave McKean


4 milhões de dólares é muita grana. Mas para a produção de um filme é basicamente um troco de bala. Para um filme de fantasia – que requer um grande orçamento para fazer o mundo e personagens parecerem criveis perante a tela – é basicamente uma loucura. Sorte que Dave Mckean tem lidado com o impossível e com a loucura durante toda sua vida artística. Se não fosse assim não teríamos Mirrormask.

Tudo começou com Lisa Henson. A produtora é filha do Jin Henson, e queria que o estúdio do pai fizesse um filme nos moldes de seus dois clássicos de fantasia: Labyrinth e The Dark Crystal. O problema seria o dinheiro. Ao ver os curtas que Dave Mckean criou por puro prazer ela entrou em contato com o artista. O estilo abstrato e fantasioso era muito interessante, e bem mais barato que as marionetes animatronics usadas nos filmes anteriores. Ele topou ser o diretor. A história foi escrita por ele e seu colaborador de longa data Neil Gaiman. A partir dela Neil Gaiman criou o roteiro.

A história foi escrita na casa de Jim Henson. Lá eles eram cercados por Muppets e puderam ver coisas raras, como a versão não-editada de 3 horas de duração de Labyrinth. Ambos relatam a experiencia como quase traumática. Eles já haviam trabalhado juntos antes, mas em áreas restritas: Gaiman cuidava da história e McKean das ilustrações. Para escrever Mirrormask eles viviam em andares separados, criando partes da história, e depois se reuniam no andar intermediário da casa para juntar as coisas.

O resultado é uma história sem rumo. As cenas isoladas são boas e bem escritas, mas não se integram como deveriam. A protagonista parece tão perdida quanto quem assiste, sem saber o que vai acontecer em seguida ou para onde deve ir. Tudo é interessante, mas falta polimento.

O filme trata de Helena, uma menina de 15 anos que mora e trabalha no circo de seus pais. É sempre bom ver uma mulher como protagonista. Rapazes destemidos brandindo espadas e salvando donzelas e princesas são comuns em todas as mídias. Garotas determinadas são mais raras. E Helena é uma delas. Uma artista que não gosta da vida de circo e deseja fugir para a vida real. Mas quando sua mãe adoece e precisa passar por uma cirurgia Helena se vê presa em um mundo abstrato e perigoso.

Ela foi parar na Cidade da Luz, que vai sendo lentamente consumida por sombras. Helena é chamada de princesa, e descobre que a Rainha Branca caiu em sono produndo depois de um artefato ter sido roubado. Ela se oferece para resgatar o artefato, a Máscara da Ilusão. Ela conta com a ajuda de Valentine, um malabarista que encontrou na Cidade da Luz, e não sabe que está sendo vigiada pela Rainha das Sombras.

Há reflexões e metáforas mais profundas por baixo de tudo, principalmente no que se refere a relacionamentos familiares, sonhos e o mundo real. As interpretações são muito boas, e os poucos atores conseguem passar muito bem emoções e sutilezas em meio as cenas abstratas do cenário.

Foi o trabalho de Dave que mais consumiu tempo. As filmagens foram rápidas. Em 30 dias tudo estava pronto. Mas o trabalho de pós-produção gastou 17 meses. A parte de animação em si deve ter sido muito trabalhosa. Dave era acostumado a trabalhar sozinho, e de repente tinha um equipe de animadores para cordenar. Animadores recém saídos da faculdade.

Cada cena, cada pedaço do filme tem o toque de Dave Mckean. Seja pelo estilo de filmagem, pelas cores usadas, pelo jogo de luz e sombra, pelos seus desenhos que aparecem e ganham vida, tudo é um reflexo do criador. O começo do filme em particular é muito bom. A retratação da vida no circo e dos bastidores é tocante, em grande parte pela direção artística. E pensar que tudo isso foi feito no orçamento limitado e com poucas pessoas envolvidades é fabuloso. Quem acha que o que é feito com computadores não é arte precisa assistir a este filme urgente. E quem curte animações vai ficar de queixo caído em relação ao modo como elas se integram ao cenário e às pessoas.

No final das contas Mirrormask passa a quem assiste a impressão do que realmente é: uma experiência feita por iniciantes com muito talento e pouca prática. A criatividade e o visual único e os diálogos interessantes fazem o filme valer a pena. É um excelente exemplo de filme cult. Tem seus defeitos, mas as qualidades superam. Foi feito direto para venda em DVDs e se saiu (e se sai) muito bem, basicamente no boca-a-boca. Que pra mim é o meio mais sincero de propaganda.

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