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Nausicaä do Vale do Vento

Depois de uma certa decepção com o último filme do Ghibli decidi rever os antigos. É sempre bom assistir algo novamente. Dá pra reparar em detalhes não notados antes, refletir sobre o roteiro e os clássicos sempre servem de comparação com os atuais. Nada melhor que começar por Nausicaa, um filme tão velho que tecnicamente nem é do Ghibli ^^

A história da produção é a seguinte: Nausicaa foi produzido pelo estúdio Topcraft, um estúdio que fazia não só animes mas também alguns filmes de animação em longa metragem sob encomenda para os americanos. Como exemplos temos The Return of the King e The Last Unicorn. Topcraft era um dos poucos estúdios a fazer a animação do começo ao fim. Decididos a fazer um outro filme, Isao Takahata foi escolhido como produtor. O diretor escolhido foi Hayao Miyazaki, uma aposta arriscada, pois seu último filme (Lupin III O Castelo de Cagliostro) foi um fracasso comercial. A obra a ser animada seria Kaze no Tani no Naushika, conhecido aqui como Nausicaa no Vale do Vento, um mangá do próprio Miyazaki e que demorou 13 anos pra ficar pronto.


Nausicaa é a princesa do Vale do Vento. O Vale do Vento é um lugar de paz e tranquilidade, atípico no mundo. 1000 anos atrás houve os Sete Dias de Fogo, um apocalipse causado por humanos que quase aniquilou a humanidade, cobriu a terra em poluição e criou o Fukai, selvas de fungos tóxicas onde só sobrevivem insetos, pois até o ar é mortal para os humanos. E os insetos vão desde pequenas criaturas até seres gigantes, capazes de destruir sozinhos pequenos vilarejos.

Nausicaa tem facilidade de se comunicar com várias criaturas, inclusive insetos, e é curiosa e corajosa. Em uma de suas habituais explorações ao Fukai com sua espécie de asa delta a jato ela acha uma casca de ohmu, lagartas gigantescas com a pele duras como pedra. Na volta para o Vale ela ajuda um humano, Mestre Yupa, um sábio e poderoso senhor que estava indo para o Vale do Vento. Ele conta que o Fukai está se expandindo cada vez mais, e o futuro dos humanos é incerto.


Naquela noite uma grande aeronave de carga se choca no Vale do Vento, sendo atacada por um enxame de insetos. Nausicaa e os habitantes chegam para ajudar, e ela encontra uma garota acorrentada. A jovem se chama Rastel e é a princesa do reino de Pejite. Ela pede pra que a carga da aeronave seja destruida e morre em seguida.

No dia seguinte um esquadrão de aeronaves de carga e de combate chega ao Vale do Vento. Elas são do Império Tomurekiano, e despacham soldados que matam o pai de Nausicaa. A garota mata vários soldados e só é parada graças ao Mestre Yupa. Devido a inferioridade militar o Vale do Vento se rende ao império, e a princesa Kushana de Torumekia começa a desenvolver a carga da aeronave que havia se chocado na noite anterior: um embrião de uma das armas genéticas que destruiu o mundo no passado. Nausicaa é levada refém para o Império, mas no meio do caminho a nave onde eles estavam é atacada e a jovem cai no Fukai.


O mundo criado para Nausicaa foi feito nos mínimos detalhes. É impressionante notar que vestimento, ambiente, roupas e modo de vida foram feitos do zero, a partir do estado em que o mundo se encontra. O roteiro de Nausicaa segue o alto padrão e é tão intrincado e criativo quanto o ambiente, cheio de reviravoltas e momentos marcantes.

Os personages são multidimensionais. Nausicaa é uma princesa amável e que se preocupa com seu povo, mas em uma explosão de raiva mata vários soldados de maneira fria e eficiente. Kushana é uma militarista sem muito apreço pela vida alheia, mas que tem no passado muito sofrimento. Esta dualidade e complexidade faz de Nausicaa um filme mais maduro e violento do que um olhar sobre a capa ou lida na sinopse sugere. Outra característica marcante são os personagens femininos fortes. Hoje em dia boa parte das animações colocam personagens moe, meninas inocentes e incompetendes, prontas para ser salvas e atenderem aos desejos do protagonista (e às fantasias dos otakus). Nausicaa do Vale do Vento tem mulheres que não apenas reagem a trama e sim são responsáveis diretas pelo que acontece, influenciando o futuro de todos a seu redor.


E como a animação de um filme de 1984 se mantém? O visual de Nausicaa é certamente mais belo que a grande maioria dos filmes lançados nos dias de hoje. A animação quase artesanal é toda bem trabalhada, com um capricho enorme que Miyazaki nunca deixou de ter em todos seus filmes do Ghibli. As cenas de voo e batalhas em particular são de tirar o fôlego, tanto em pequena escala quanto nos acontecimentos épicos tão comuns no filme.

A trilha sonora conta com Joe Hisaishi. Ele simplesmente definiu o estilo a ser adotado pelo estúdio nas décadas a seguir. Suas melodias elegantes são o complemento ideal as imagens do filme, e alcançam uma harmonia surpreendente. A dublagem e os efeitos sonoros são de grande qualidade também, pelo menos na versão que ouvi (audio em japonês).


O filme foi lançado nos Estados Unidos sem o conhecimento do diretor. A versão altamente censurada se chama Warriors of the Wind, onde 25% do filme foi cortado para eliminar as cenas mais paradas e sem ação. Felizmente esta versão é cada vez mais rara, mas fica o aviso pra quem quer assistir fugir dela a qualquer custo. O filme não foi lançado em DVD aqui no Brasil, mas foi recentemente lançado em blu-ray no Japão, então há (parcas) esperanças de ver uma edição nacional um dia.

O sucesso de Nausicaa foi grande a ponto de permitir a criação do Studio Ghibli, referência em animação no mundo todo. Muitos dos que trabalharam no filme foram para o estúdio e fizeram carreira lá, ajudando a criar filmes que redefiniram a indústria. Nausicaa mesmo se destaca como um filme ímpar em todos os aspectos. A mensagem ecológica e pacifista feita quase trinta anos atrás ainda é mais tocante e profunda que a maioria das obras que tenta o mesmo efeito. Nausicaa levou a animação para outro nível e é um clássico absoluto.

2 comments

  1. Ótimo post. Gostei muito do filme quando o vi, há alguns anos. Lembro que as aves que usam como transporte (ver imagens 1 e 2 acima) me pareceram Chocobos. Achei muito legal na história o fato de que, se bem me lembro, os fungos não crescem no Vale dos Ventos porque os ventos os impedem de crescerem lá. A ideia pós apocalíptica da raça humana enfrentando a natureza foi, sem dúvida, bem explorada na animação.

    1. Os Chocobos foram “emprestados” pela Square, já que Final Fantasy surgiu depois. Tanto que eles não se preocupam com cópias, é fácil achar bichos similares em jRPGs. Nausicaa e Laputa inspiraram incontáveis jogos e abriram o precedente de mulheres heroínas no (extremamente preconceituoso) Japão. Tem um artigo legal que li a respeito, se animar dar uma olhada:

      http://telebunny.net/toastywiki/index.php/Games/LaputaEffect

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