Name of the Wind

O Nome do Vento

No Brasil não são lançados muitos livros de fantasia. Se por um lado isso nos poupa de muita porcaria, por outro lado somos privados de muitas obras de qualidade consagrada. Numa procura pelas melhores obras do gênero do gênero é fácil encontrar O Nome do Vento, mas eu nem sabia que ele tinha sido lançado aqui. Provavelmente devido ao furor que foi o lançamento de Guerra dos Tronos.

De maneira simples O Nome do Vento é um anti-Guerra-dos-Tronos. O que não é algo bom nem ruim. Apenas indica que ele é completamente diferente. Ao invés de dezenas de personagens importantes temos apenas um. Os eventos não são tão épicos, e há só um ponto de vista.

Conhecemos Kote, dono de uma hosperaria Marco do Percurso. Ele vive lá com seu aprendiz, Bast, e ouve notícias sobre como os perigos do mundo vem aumentando. Seus clientes nem imaginam que ele é Kvothe, homem sobre o qual foram criadas lendas e mais lendas sobre seus feitos. Com a chegada do Cronista, um famoso escritor, Kvothe é convencido a narrar sua biografia. Ele pede três dias, e O Nome do Vento abrage o primeiro dia. A trilogia do qual ele faz parte é chamada de A Crônica do Matador do Rei, e teve apenas os dois primeiros livros lançados.

O livro se passa em dois períodos distintos: o presente, que só aparece brevemente, e o passado. Kvothe começa contando de sua infância com os Elena Ruth, que são artistas itinerantes. O garoto é um gênio, com uma capacidade de aprender fora do comum. No meio de suas viagens ele conhece um arcanista, Abenthy, que o introduz nas ciências e no equivalente a magia. O rapaz tinha um futuro brilhante, não fosse o destino trágico que aguardava.

Patrick Rothfuss é muito talentoso ao montar a personalidade de Kvothe e as lendas que surgiram ao seu respeito. O personagem é realmente cativante, assim como o mundo ao seu redor. Notável também é o talento do autor de jogar os detalhes a conta-gota, nunca revelando muito. Esses mistérios mantém o leitor sempre interessado, mesmo que Kvothe a princípio não tenha uma missão ou objetivo maior de vida. Outro fato interessante é que Kvothe é um mago e músico, ou seja, bem diferente do guerreiro em cota-de-malha tradicional.

Mas se Kvothe é a estrela os outros personagens são muito rasos. Seus amigos tem participações tão apagadas que eu não decorei seus nomes. Seus inimigos tem pouca presença. Realmente dá pra contar nos dedos de uma mão os personagens que realmente despertam interesse.

O ritmo é inconstante. O começo do livro é muito empolgante, e continua assim até a chegada na Universidade. Mas há uma série de capítulos onde o personagem caça um dragão que simplesmente não combina com o tom do resto do livro. E que não tem importância nenhuma pro desenrolar da trama.

Há também um romantismo exagerado. Em um ambiente mais científico e realista é muito estranho ver o protagonista agindo como um cavalheiro de histórias medievais. Fora que um rapaz de 15 anos não desperdiçaria tantas chances de fazer sexo.

Mas o grande problema mesmo é o final. Os livros já foram todos escritos, inclusive uma outra trilogia. Isso é ótimo, já que se Patrick morrer sua obra não ficará incompleta. Eu acredito que o autor escreveu a primeira trilogia como um livro só, apenas isso explicaria o final tão insosso. Ele deixa muitas pontas soltas, mas não consegue deixar o leitor empolgado nem ao menos para no meio de nada importante.

Apesar dos pesares O Nome do Vento é um livro inteligente e bem escrito. Por se tratar do primeiro livro do autor os erros são perdoáveis e acredito que a continuação, O Temor do Sábio, será ainda melhor que o primeiro. Mas como o final de O Nome do Vento não me deixou empolgado vou dar uma lida em outros livros  antes de voltar à série.

6 comments

    1. Eu ganhei o livro de aniversário. Pra ser sincero não dava muita coisa por ele, mas quando comecei a ler só fui largar 2 horas da manhã. E só porque tinha que trabalhar no dia seguinte ^^

  1. O livro é baseado na história de um personagem apenas, os outros são realmente meros coadjuvantes, por isso não se faz necessária a presença deles em todos os momentos a ponto de você se lembrar de seus nomes com exatidão sempre.
    Os vilões também são mostrados a conta gotas como tudo no livro, dando ênfase sempre a procura obstinada, mas que ao mesmo tempo não pode ser nada explicito, pois se assim fosse, ele mesmo correria risco de vida, ou então seria motivo de piada pela maioria, que acredita que o Chandriano é apenas um conto de fadas qualquer, de qualquer das duas formas o personagem principal se sairia mal, ou sendo caçado pelo assassino dos pais, ou sendo dado como idiota por todos que não acreditassem em sua história (que são quase todos por sinal).
    E com relação a história do dragão, é apenas uma história paralela a principal, um dos vários fatos que aconteceu em sua vida, como por exemplo a história da rixa dele com o próprio Ambrose, afinal de contas, o que ele está fazendo é uma autobiografia, e não um livro de contos, ou seja, ele está contando fatos da própria vida dele, e nem tudo é somente uma perseguição ao Chandriano.

    Essas foram as coisas que eu discordei da sua opinião a respeito do livro, Heider. Mas no geral gostei de boa parte do que voce disse, como por exemplo que falta um ritmo em certas partes, mas convenhamos, se é a vida do cara, ela não será um filme Hollywodiano, terão momentos de calmaria, da mesma forma que haverá de ter também momentos mais emocionantes.

  2. As pequenas histórias contadas no decorrer do livro são na verdade as futuras lendas que surgirão ligadas ao nome “Kvothe”, o homem sem sangue (após ser chicoteado pelos problemas causados por Ambrose) após a história do dragão ele fica conhecido como o homem que colocou fogo em (eu esqueci o nome da cidade). E é claro que não é dado muitos fatos sobre o chandriano, a história é contada em forma cronológica, e na época em que a história de Kvothe começa ele não sabe nada sobre o chandriano, então vamos aprender sobre esse vilão junto com ele. É uma maneira arriscada de escrever, mas impressiona se você se entrega à história. No demais adorei sua resenha.

  3. Não consigo concordar com a maior parte das coisas que aqui disse Heider. O problema da maior parte dos livros de fantasia é terem demasiada informação. Num capítulo aparecem três figuras mitológicas, no seguinte aparecem mais ainda e por aí adiante dando importância a cada criaturazinha e a cada personagem. Também está sempre a acontecer alguma coisa empolgante e no fim do livro você leu uma história espectacular, muito bem elaborada, cheia de mitos e acontecimentos e batalhas e conversas mas não se sentiu ligado a nenhum personagem em especial. Já li livros brutalíssimos de fantasia e as histórias confundem-se na minha cabeça e tenho que os voltar a ler para me lembrar. Com o livro ”O Nome do Vento” voltei a ler o livro não foi para me lembrar, foi porque o autor nos dá a conhecer o personagem de tal forma que senti uma ligação extraordinária com o mesmo. E ”O Nome do Vento” sendo uma autobiografia não é suposto estar sempre a acontecer alguma coisa. Daí você dizer que sente falta de ritmo na história. Mas pense lá um bocadinho na sua vida. A maior parte das coisas que marcaram a sua vida e lhe deram prazer foram coisas simples, conversas, passeios, coisas do quotidiano. Claro que houveram outras que lhe proporcionaram emoçoes fortes e acontecimentos inesperados mas a sua vida é feita de coisas simples intercaladas por coisas emocionantes e excitantes muito de vez em quando. E se um dia escrever a sua autobiografia, se apenas escrever as partes excitantes da sua vida o seu livro será excitante, emocionante mas sem alma. Patrick Rothfuss conseguiu dar alma à sua personagem. Ele sabe que é mais importante isso do que o pôr constantemente em batalhas e em aventuras. E não concordo com o que disse acerca das outras personagens serem rasas. A maior parte delas estão lá no dia-a-dia de Kvothe, no seu quotidiano e é normal que o livro não se centre nelas. Porque o livro contém o pensamento de Kvothe em relação a elas. A sua opinião. Ou seja, por muito que Kvothe descreva os seus amigos ou inimigos, vamos conhece-los sempre sob o seu ponto de vista. Por muito descritivo que Kvothe seja acerca de um amigo é ELE MESMO que está a falar e a dar a sua opinião. Por isso sempre que ele descrever alguém, acaba por se estar a descrever a si próprio por nos dar a conhecer aquilo que ele acha ou sente pelos outros. Há livros que saltam de personagem para personagem. Podem ser mais completos nesse sentido mas esta trilogia é mais completa que a maior parte das histórias de fantasia sob muitos aspectos. É simplesmente diferente, ousada, descritiva, sensual, e completamente genial seja pela história, pelos personagens cativantes, pela descrição de expressões alheias, pela forma de escrever espectacular ou pelo personagem principal que consegue cativar-nos e consegue sugar-nos para dentro de si próprio mostrando-nos o seu mundo com os seus próprios olhos!!!

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