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O Problema com Fanboys

Eu adoro quadrinhos, e conheço um bocado da mídia.  A maioria das pessoas quando ouve a palavras ‘quadrinhos’ a associa imediatamente a super-heróis ou histórias infantis. Embora ela vá MUITO além disso, este texto se dedica especialmente aos quadrinhos de super-heróis.

Pense nos super-heróis que você conhece. Imagine quando eles foram criados. Batman? 1939. Superman? 1938. Homem-Aranha? 1962.  Os vilões também são muito antigos. Se pensar nas adaptações de quadrinhos para cinema o personagem de destaque mais recente que consigo me lembrar é o Bane, que é de 1993. É, mais de 20 anos. Estes quadrinhos são eternos, não tem um final programado. Eles sobrevivem da reciclagem de temas e personagens. Ninguém acredita quando alguém “morre” – ele vai voltar em breve.

Mas quadrinhos de super-heróis são focados em jovens. E eles gostam de mudanças. Este equilíbrio entre ter que inovar e ter que voltar a um ponto inicial é uma das características mais marcantes (e legais) da mídia. Quando o Homem-Aranha pegou o uniforme negro do Venon ou o tecnológico do Tony Stark nós sabíamos que ele voltaria ao uniforme antigo mais cedo ou mais tarde. Isto não fez as histórias serem piores. Somos cúmplices desta empolgação toda. É uma distinção fundamental dos comics pros mangás – embora o Goku frequentemente volte dos mortos, eles contam sua história no além, e uma vez que ele aprendeu a virar Super Sayadin eu posso esperar que ele sempre vai virar Super Sayadin daqui pra frente.

Qualquer um que leia quadrinhos sabe destas mudanças, das mais malucas às mais esperadas. Tanto boas quanto ruins. Algumas grudam ao personagem e não saem, principalmente se as mudanças acontecem no começo de suas carreiras. Batman atirava com armas de fogo e matava criminosos – algo impensável pro personagem de hoje. É o que faz parte de sua ‘essência’. O problema é que esta ‘essência’ vai variar de fã para fã.

No último filme do Superman ele mata. Eu não achei o filme uma porcaria, mas o fato é que a primeira metade – Clark Kent ajudando as pessoas anonimamente – representa muito mais Superman pra mim. Mas achar que o Superman matar é exclusividade do cinema é besteira. Na primeira edição de a Liga da Justiça nOs Novos 52 todos os personagens já matam vários alienígenas…

Muitos nerds são drama queens e super-protetores com as coisas que gostam. E acham que tem o poder de prever o futuro. Então se um filme escalou tal ator ou diretor ele automaticamente será uma merda, não é nem preciso assistir. Entre atores que sofreram com isso temos o Heath Ledger (ah, o cara fez filme de menininha, vai ser um Coringa de bosta). O que chega a ser compreensível. Não aceitável, mas compreensível.

Peter Parker é um cara que se ferra na vida o tempo todo fazendo a coisa certa. É um nerd órfão pobre que não se dá bem nos esportes, tem paixões platônicas e carrega consigo a responsabilidade de cuidar de sua tia. Na época que foi criado. Compare com um personagem que é um gênio, casado com uma ruiva super modelo e pertencente a mais respeitada organização de seu mundo. É o que ele se tornou. Isto pode deixar felizes as pessoas que cresceram perdedores e se espelharam nele. Mas e os novos perdedores? E os que vivem tomando pancada do mundo e tentando, ainda assim, fazer a coisa certa? Com quem eles vão se identificar?

A Marvel tem um universo alternativo chamado Ultimate. Ele tem consequências, lá quem morre permanece morto. É uma ótima leitura, com muito mais peso, que está acabando depois de histórias fenomenais. A maior contribuição deste universo pra mim é o Miles Morales. Peter Parker morre tentando salvar a Tia May, em um desfecho totalmente digno do herói e emocionante. Miles acaba se tornando o novo Homem-Aranha. Ele é uma criança introspectiva, filho de mãe latina e pai negro, estudioso, mas com pouquíssimas chances de ir pra uma faculdade (que nos Estados Unidos são todas pagas). Ele gera muito mais identificação com o conceito original do Homem-Aranha que o Peter Parker.

A última polêmica é que o ator que fará o Tocha Humana é negro. Dizem que por isso ele não será irmão da Susan Storm. Bem, pelo que eu entendo de genética é totalmente possível que eles sejam irmãos. Minha avó materna era negra, meu avô materno branco, e os filhos e filhas deles formam um degradê enorme. Fora isso eles poderiam ser adotados. E, além disso, não creio que a relação fraternal dos dois seja tão importante assim nos quadrinhos. O casamento da Susan e do Reeds é, mas o Tocha Humana funciona muito bem até sozinho. O estilo mais brincalhão e estourado dele é algo muito mais destacado nos quadrinhos do que seus laços e dramas com sua irmã.

As maiores polêmicas parecem ser sempre com a cor de pele dos personagens, ou envolvendo o sexo. O novo Thor é uma mulher, Ângela. Ignoram que Thor não é apenas um nome – é também um cargo, destinado a todos que empunham o Mjolnir. Que Thor Odinson não foi o único Thor nos quadrinhos, nem nunca será. Enquanto isto o Doutor Destino no filme do Quarteto Fantástico será um blogueiro. É uma mudança completa no conceito do personagem (veja bem, falei conceito, não essência – não vi o filme ainda) e que não gera tantos debates.

Eu tenho certeza que a maioria das pessoas que reclama disso NÃO ACOMPANHAM QUADRINHOS. Thor já foi um sapo. E já teve cara de cavalo. O Homem-Aranha já se deslocou por  Nova York em um jipe, o spider-mobile. E já teve poderes cósmicos. Por aí vai. Se quiser falar só de coisas acontecendo agora, bem, o Hawkeye está surdo. Wolverine morto. Superman ganhou um novo poder. O mundo dos quadrinhos é dinâmico. Porque os filmes não iriam refletir isso?

Porque não fazer personagens negros ou mulheres e deixarem os antigos em paz? Bem, os antigos sempre mudam de qualquer maneira. Capitão América já foi um extraterrestre, mas ser um cara negro não pode? É um argumento forte.  Mas há também o fato que quadrinhos não trazem tantas inovações. Qual o último grande personagem a ter sido criado? Que arrebatou muitos fãs? Acho que foi o Damian Wayne, em 2006. E se há uma população negra que agora importa (porque havia leis para segregação de negros nos Estados Unidos até 1964) porque não ter personagens com os quais ela possa se identificar?

Não sei quem será o novo Homem-Aranha no universo cinematográfico da Marvel. Acho muito difícil ser o Miles Morales, e nem sei se ele poderia ser explorado como deveria lá. Mas acho um saco termos dois atores interpretando o mesmo personagem ao mesmo tempo. A Marvel tem seus momentos de ousadia nos quadrinhos, mas nos filmes nem tanto. É bem mais infantil que a DC. Embora eu tenha adorado Os Vingadores é notável que a invasão – sem sangue e sem morte não importando a escala da batalha – é algo muito Seção da Tarde. Então quando outro estúdio ousa eu fico feliz. Tem um potencial de dar certo. Pode dar totalmente errado? Claro. Mas não será pela cor da pele de algum personagem.

Os três desenhos animados americanos que mais gostei nos últimos tempos são bem ousados. Um tem um protagonista que não é branco, uma deficiente física e é baseado em mitologias indianas. Sua continuação tem uma mulher como protagonista de um desenho de ação, e um casal homossexual. Nomes? Avatar – tanto o de Aang quanto o Legend of Korra. Já o outro tem um negro líder de uma equipe de super-heróis. Chama-se Young Justice. Variedade não é sinônimo de limitação. Nunca foi. A DC cancelou Young Justice porque muitas garotas estavam assistindo. The Legend of Korra muito provavelmente não teve seu final exibido na TV pela implicação de homossexualidade.

One comment

  1. Gostei bastante do texto, incrível como ele se aplica à tudo quanto é tipo de entretenimento, salvas as devidas proporções. Quadrinhos, Games, Música, Filmes, etc…
    Claro que existem alterações/decisões que as vezes são muito ruins de se aceitar, mas o ideal seria as pessoas no mínimo respeitarem as histórias e tentar ler/assistir com a mente aberta. Vc mesmo falou de mudanças que foram boas e moldaram uma personalidade de cada personagem que se tornou marcante. Se não tivessem arriscado algum dia, essas características nunca teriam aparecido. Se for ruim, não aparece mais, simples assim. Não precisa de drama.
    Eu não sou tão ligado em quadrinhos, então não conheço todas (não sabia, por exemplo, sobre o Batman usar armas de fogo)… costumo ver filmes e séries que envolvem super heróis com olhos menos críticos. Algumas mudanças eu costumo achar estranhas, outras eu gosto. Mas aí é gosto pessoal, né?
    Ótimo texto!

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