Le Logo das Cronicas Orcs

Krajahr Orkinish – Capítulo I (Parte 1 de 2)

Capítulo I

Migração

Parte 1 de 2

Era manhã. O silêncio da floresta só era quebrado pelos pássaros que cantavam sem medo de corujas ou gatos selvagens. Vez ou outra um canto se sobressaía e silenciava os demais que, por alguns momentos, se entreolhavam para saber quem fora o responsável. A vida parecia tão tranquila que era comum pássaros se trombando em pleno vôo. Talvez houvesse por ali qualquer coisa que atordoava as aves ou que as deixasse desnorteadas. Ou era burrice mesmo.

Mas não era uma manhã qualquer pois, de súbito, tambores começaram a soar. Em um instante toda a floresta emudeceu e algumas aves levantaram vôo. Era como se  uma tempestade se aproximasse. Ao longe, várias carroças podiam ser avistadas da borda da floresta. Talvez os animais temessem que fossem homens, e com machados. Mas era pior que isso: eram orcs, e com machados.

Orcs não são exatamente povos pacíficos, ou sociais, ou pacientes, ou um punhado de coisas que os faria com certeza mais simpáticos. Tem a pele verde, cabelos escuros e olhos profundos. Não estavam muito agressivos nessa época: já foram sangrentos demais por séculos, talvez estivessem tomando fôlego por alguns anos. Ou estivessem ficando mais… preguiçosos. Contudo, adoravam uma boa briga ocasionalmente.

As carroças se arrastavam a passo lento puxadas por lagartos bípedes. Recortadas no horizonte, mostravam-se grandes e cobertas. Quase majestosas. Mas de perto, eram somente simples carroças com tendas de couro marrom claro. Eram amplas e tinham suficiente espaço na parte da frente para o condutor se sentar ou até deitar. Possuíam rodas maciças que deslizavam sempre vagarosas. Parecia que se alcançasse muita velocidade, a primeira parte da carroça a desistir de continuar seriam as rodas. Enquanto isso, alguns orcs mais jovens vinham caminhando a frente, atrás ou perigosamente entre os veículos. Exceto por um orc que parecia insistir em marchar quase a frente do comboio.

– Toque outra marcha sinfônica no tambor, Krane.

Com um machado em punho e fortes pisadas, o orc direcionava olhares irritados ao companheiro. Este, no entanto, parecia não se importar muito com a “marcha”.

– Já toquei Opus 12 da Krikn, a Marcha Imperial em Tambor Menor… O que mais quer que eu toque?

– Espere… o que você tocou primeiro?

– Opus 12 da Krikn.

– Krikn? Pare de falar em “língua antiga”*! Ninguem mais fala assim. O que isso quer dizer?

– Krikn significa: “Marcha sobre os corpos falecidos dos inimigos mortos na batalha entre orcs e humanos que fora desfavorável para os orcs mesmo esses tendo conseguido matar bem mais sendo bem menos.”

As carroças continuavam a avançar e Krane havia aproveitado o momento para descansar do tambor. Logo ao seu lado esquerdo ia o único soldado orc. Krane ficou curioso nessa hora. O militar interpretava agora aquela complicada palavra-frase e tentava marchar ao mesmo tempo. Isso lhe dava uma impressão ridícula. Parecia uma boa hora para praticar algum outro instrumento. Talvez uma sonata em flauta alegrasse o grupo. Krane tirou a flauta de uma sacola próxima de um dos tambores e começou a toca-la. Subitamente, do outro lado do grupo de migrantes  um berro chamou a atenção de todos.

– Vocês aí! Eu já ouvi demais desses malditos tambores e agora tenho de ouvir esse galho musical? Tem gente tentando dormir aqui!

Krane e o que marchava, Bokábara, olharam-se com um sorriso.

– Você não gosta de música, Inaraki-sh-ha?

– Isso que vocês fazem não é música! Posso estar velho mas sei muito bem que música sem gritos não é música! Música tinha era na guerra!

– Quer que eu grite, Inaraki-sh-ha?

Os companheiros olharam para um rosto jovem que aparecia saindo da carroça de Krane. Inaraki-sh-ha projetou a cabeça para fora da carroça e forçou os olhos numa tentativa de ver também. A barba branca lhe pendia do queixo e formava uma trança longa. Exclamaram quase que simultaneamente:

– NÃO!

– Pode deixar…

– Não gaste sua… bela voz, querida.

A orc – pois era uma fêmea – ficou visivelmente chateada. Soprou então a franja com desprezo. Franziu o rosto e voltou para dentro da carroça reclamando tão baixo que só Krane, que guiava a carroça por cima dos tambores, ouviu:

– Estúpidos! Incultos! Kramak’bashmanash-i-nah!

Nessa hora Bokábara teve um arrepio. Lembrara de quando a bela Gnish tentou cantar: um dia de tempo enevoado. Ela era apenas uma criança e resolvera que seria cantora. Juntara os amigos para sua primeira apresentação. Começara. Mas eis que alcançou uma nota tão aguda que deixou todos a volta surdos por alguns momentos e ligeiramente atordoados. Um dos amigos tentou se atirar no poço para fugir daquele som infernal. E isso foi apenas o início de uma terrível dor de cabeça. Bokábara apertou a própria cabeça com as duas mãos.

Inaraki-sh-ha então disse:

– Acho que estamos chegando, aquela árvore está começando a me parecer familiar.

– Tem uma floresta logo a frente, como pode dizer “aquela árvore”? Disse outro orc.

– Bom se eu digo que eu reconheço a árvore é porque já a vi antes.

Kramov ficou bastante confuso com essa afirmação. Parecia muito óbvia para ser dita em voz alta.

– Também estou reconhecendo essas marcas no chão. Disse o ancião.

– Mas essas marcas acabaram de ser feitas pelas rodas da carroça! – Emendou Kramov.

– Cale a boca e continue a guiar, não queremos que ninguém nos ultrapasse.

– Venerável ancião – começou o condutor em tom respeitoso -, as carroças ali atrás estão nos seguindo. Não faria sentido nenhum um deles nos ultrapassar.

– Você não entende das coisas, fique quieto! Veja, ali na frente, eu reconheço aquela pedra, vamos pra lá.

– Krane! Aquela pedra. – apontou Kramov – Vamos pra lá.

Krane olhou na direção que o orc apontara. Confirmou então com a cabeça enquanto puxava as rédeas para a esquerda. Não eram muitas carroças aquele estranho cortejo. Umas vinte ou trinta e era mais que suficiente para uma pequena tribo de orcs. As carroças começaram a fazer um leve desvio a esquerda. Na frente ia a carroça de Krane e da irmã enquanto Bokábara marchava a esquerda. Ao lado direito estava a carroça de Inaraki-sh-ha e era guiada por Kramov.

Logo começaram a subir um suave aclive. Pararam próximos a tal pedra, que tinha o formato de um pão de açúcar. A parte mais alta devia ter uns quatro metros e era quase toda coberta de musgo. Inaraki-sh-ha olhou rapidamente a rocha e sussurou algo a Kramov. Logo esse se levanta e grita para as carroças que estão vindo logo atrás:

– Parada!

Orcs são um pouco surdos pois, em geral, não gostam muito de ouvir algo que não seja a própria voz. Logo, outros orcs gritam na sequência, enquanto as vozes parecem sumir entre os ruídos dos carroças:

– Manada!

– Maneira!

– Torneira!

Krane desceu da carroça e olhou para Inaraki-sh-ha que tambem descia. O ancião falou de forma solene:

– Diga a todos que arrumem as carroças aqui perto, estacionem em quarenta e cinco graus ali do lado. – E apontou para a esquerda da rocha.

Krane fez um sinal com a cabeça e começou a andar em direção ao fim da fila. A medida que passava, as carroças já começavam a manobrar para levar os veículos para o local indicado. Contudo, dois orcs condutores começaram a discutir um ao lado do outro, cada um em sua carroça.

– Que confusão é essa aqui? – Indagou o mensageiro.

Os que berravam insultos simplesmente ignoraram a pergunta. Começaram a descer das carroças e a gritar agora um na cara do outro, cuspindo.

Krane então, como um “pacífico orc” resolveu tentar persuadi-los a se acalmarem com uma técnica nada efetiva: gritando mais alto. Isso só fez com que houvesse mais confusão no local. […]

Continua…

Notas de Tradução:

Kramak’bashmanash-i-nah – bobos.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *