Pica-Pau

Pica-Pau não foi o primeiro, mas certamente foi o mais marcante dos personagens birutas da Golden Age of American Animation. De acordo com a história oficial da criação do personagem, ele surgiu durante a lua-de-mel de Walter Lantz e sua esposa Gracie. Um pica-pau bicava a cabana onde eles estavam, o que os deixou incomodados. Depois de um tempo começou a chover forte, e descobriram que ele havia feito vários buracos no teto. Walter então se inspirou no pássaro chato para fazer sua maior criação. Uma história divertida, que peca por um motivo: quando Walter Lantz casou, o desenho do Pica-Pau já havia estreado fazia algum tempo. O que faz pensar que foi só algo inventado – ou que por “lua-de-mel” Lantz talvez se referisse a sua primeira vez com a  futura esposa, já que sexo antes do casamento era algo extremamente criticado na época.

A primeira aparição foi no desenho Knock Knock, dia 25 de novembro de 1940. Andy Panda e seu pai tentam capturar o pássaro, que parece pertubá-los só por diversão. Embora seja centrado nos dois pandas, é o Pica-Pau que rouba o show. Como muitos dos personagens clássicos da Golden Age, Pica-Pau foi tendo sua aparência modificada. Neste primeiro desenhos ele é muito mais gordo e menos parecido com um humano, mas ainda é reconhecível. Sua voz foi dublada por ninguém menos que Mel Blanc, na minha opinião o maior dublador do mundo. É dele também a risada característica. Mel Blanc, entretanto, dublou só os quatro primeiros episódios. Depois disso, ele fechou um contrato de exclusividade com o estúdio Leon Schlesinger Production, futuramente renomeado para Warner Bross. É interessante notar que a risada já havia sido utilizado por Mel Blanc em um desenho do Pernaloga, um protótipo chamado Elmer’s Candid Camera. Anos depois Blanc processou Walter Lantz pelo uso de sua risada, que foi gravada e era reproduzida durante os episódios. Ele perdeu o processo.

O segundo desenho do Pica-Pau marcou sua estréia como protagonista. “Woody Woodpecker” é importante também por dar um nome ao personagem. A tradução do título seria algo como “Woody, o Pica-Pau”. No Brasil o nome foi ignorado, e o xará do cowboy de Toy Story ficou conhecido apenas como Pica-Pau. Nesta fase, embora com aparência modificada, Pica-Pau ainda conservada a maluquice e selvageria da estréia, embora em alguns cartoons ele já fosse mais contido.

No curta The Barber of Seville, de 1944, Emery Hawkins e Art Heinemann mudaram o visual do personagem. Pica-pau ficou mais magro e com mais arestas. Mas ainda continuava com o temperamento maluco e agressivo. O curta seguinte, The Beach Nut, marcou a estréia do maior rival, Leôncio.

Mas os dias de diabo necessário não duraram muito. Dick Lundy – veterano da Disney que criou o Pato Donald – foi contratado pelo Walter Lantz em 1946. Ele rejeitou a insanidade dos antecessores, e fez um Pica-Pau mais defensivo. O pássaro ainda tinha seus momentos de revolta, mas não sem motivo. A qualidade da animação melhorou muito, e foi criado o maior vilão da série, o pilantra Zeca Urubu, em 1948.

Devido a problemas financeiros Walter Lantz foi obrigado a fechar os estúdio no final de 1948. Conseguiu reabrir em 1950, mas com a equipe bem reduzida. Foi feita uma mudança no dublador, e a propria esposa de Lantz foi escolhida. Porém ela permaneceu fora dos créditos por escolha própria até 1958 por medo da audiência rejeitar uma mulher como dubladora do Pica-Pau.

Em 3 de outubro de 1957 Pica-Pau fez sua estréia na TV. Chamado The Woody Woodpecker Show, cada episodio tinha meia hora e três curtas. Entre eles o próprio Walter Lantz servia como host e explicava como os desenhos eram feitos. Com a era televisiva, Pica-Pau teve de se comportar. A violência foi atenuada, e o protagonista se transformou emum homem bom.  Em 1972 a produção de curtas foi encerrada, devido aos custos crescentes de produção.

Novos desenhos só viriam a surgir em 1999. Com o nome de Pica-Pau já até estreou uma canção de sucesso. Em 1947, Gloria Wood e Harry Babbit gravaram The Woody Woodpecker Song, usando a bastante a risada característica do personagem. A música foi um sucesso, e ela foi utilizada em um curta em 1948, chamado Wet Blanket Policy. É até hoje a única música de um curta de animação a receber tal nomeação ao Oscar, e com o tempo se tornou a música-tema do personagem.

Como muitos personagens da época, Pica-Pau também apareceu nos quadrinhos. Embora não sejam notáveis por sua qualidade, lá surgiram alguns personagens que viriam a participar dos desenhos, como Nuthead and Splinter, protótipos dos sobrinhos do Pica-Pau – conhecidos aqui como Pedrito e Lasquita. Por aqui foram publicados pela Ebal, com mudaças no nome de alguns personagens.

Pica-Pau foi o primeiro desenho animado a passar no Brasil. Estreou na extinta TV Tupi, em 1950, com o audio original. Assim como Pantera Cor de Rosa, os primeiros curtas se beneficiaram da quantidade mínima de diálogos. Com isso, era fácil exportar eles para outros países. Mesmo estando em inglês, os episódios eram de fácil compreensão para pessoas de qualquer idioma.

Desde a época da TV Tupi, a série também passou pelo SBT, Globo e Record, mas dubladas. Entretanto, é possível ouvir a dublagem original em diversas partes do desenho, já que muitas músicas não foram dubladas. Várias piadas se perdem graças a barreira do idoma. Um clássico é quando Pica-Pau encontra uma coruja, que fica piando a cada pergunta que ele faz, o que o incomoda. A graça está que o pio da coruja lembra a palavra “Who”, “Quem” em inglês. Em compensação muitas adaptações foram feitas que deram graça ao desenho. De modo geral é uma dublagem boa e bem-feita.

Pica-Pau recebeu alguns jogos, nenhum deles marcante. Mas há um que merece destaque: Férias Frustadas do Pica-Pau. Foi lançado pela Tec Toy, é um dos primeiros jogos pra videogame feitos no Brasil. Feito para o Mega Drive, o jogo é um desastre, certamente um dos piores do console. Mas foi uma tentativa ambiciosa da indústria brasileira de competir de igual pra igual com as softhouses  americanas e japonesas. Se houvesse um polimento maior, talvez hoje o jogo fosse um dos grandes jogos de plataforma da Sega..

Um pássaro maluco que alcançou a calçada da fama, Pica-Pau foi a maior estrela de seu estúdio, e continua fazendo tanto sucesso hoje quanto fazia no passado. Prova disso são as constantes exibições na TV, fazendo com que as velhas encarnações do Pica-Pau – biruta, esperto e bom moço – cativem pessoas há mais de 50 anos.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *