Roverandom

Roverandom

Os fãs do Tolkien no Brasil não tem muito do que reclamar. Suas obras mais famosas já foram traduzidas, e até mesmo algumas das mais desconhecidas se encontram disponíveis até hoje. Este é o caso de Roverandom, um história escrita em 1925 mas que foi publicada pela primeira vez em 1998 e não tem nenhuma relação com a Terra-Média.

O segundo filho de Tolkien, Michael, tinha um pequeno cachorro de chumbo e não desgrudava do brinquedo. Mas durante as férias o cãozinho foi perdido numa praia, e o garoto ficou inconsolável. Tolkien criou então uma história de um cachorro que morde a canela de um mago e é transformado em brinquedo. A partir daí ele vive várias aventuras enquanto tenta ser transformado de volta em cachorro e voltar pra seu dono.

A história é bem infantil e curta, com menos de 100 páginas. Diferente das obras mais famosas do autor Roverandom é contemporâneo ao período que foi escrito, a década de 20. A maioria das aventuras se passam na lua e nos oceanos, conforme o cachorro consegue amigos e explora os lugares (se metendo em encrencas com frequência).

Tolkien era um filólogo e profundo conhecedor de mitologias, e isso se reflete em todas as suas obras. O próprio nome do cachorro já é um trocadilho. Rover é andarilho em inglês, e random é aleatório. Algumas referências a fatos da época e grandes textos mitológicos também estão escondidas nas páginas. É interessante que Tolkien faz coisas que ele criticaria duramente mais tarde, como criar criaturas mágicas e diminutas. Mas isso é de interesse apenas dos fãs mais assíduos do escritor. Crianças e leitores mais descompromissados vão certamente gostar da encantadora história.

A edição nacional é muito bonita. A capa é no estilo de Mestre Gil de Ham, com uma cor forte predominante, um desenho ao fundo e letras douradas. Infelizmente só os dois livros seguem este belo padrão. Há algumas ilustrações do próprio Tolkien dentro do livro, inclusive algumas aquarelas coloridas. O papel é grosso e de qualidade, e o encadernamento também é bom. A tradução é boa, e há várias brincadeiras intraduzíveis que estão explicadas nas notas. O problema é que não há referência no texto ao o que tem notas. Então o leitor que quiser acompanhar as notas tem que ler uma página inteira, procurar se há alguma nota no final do livro sobre ela, ler mais outra página… É uma grande mancada da Martin Fontes.

O grande problema do livro é que ele nunca foi publicado pelo autor. Ele foi recusado quando se encontrava num rascunho já avançado, pois segundo o editor os leitores queriam mais coisas sobre hobbits. A partir daí Tolkien nunca mais trabalhou nestes textos. Assim sendo a auto-revisão não é tão boa, algumas partes tem uma leitura mais truncada. Fora que muitas aventuras só são citadas de leve, e não descritas com os detalhes que merecem. Tolkien certamente nunca iria autorizar a publicação de um texto tão “cru”, mas seu filho não compartilha da mesma opinião. Ganham os leitores, que tem acesso a mais uma obra divertida. E ganha Christopher Tolkien, que certamente fatura uma fortuna com cada livro do pai publicado postumamente, mesmo que ele provavelmente se revire no túmulo toda vez que alguém o leia ^^

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