Sakamichi no Apollon

Sakamichi no Apollon

Sendo sicero: me interessei por Sakamichi no Apollon principalmente pelo jazz. Não entendo muito de estilos musicais, e não finjo entender. Não sei diferenciar jazz e blues, por exemplo, só ouvindo. Eu simplesmente gosto de ambos e ponto. E o jazz antigo no trailer do anime foi muito mais atraente pra mim do que brigas empolgantes ou animações soberbamente detalhadas. Decidi que eu assistiria pelo menos um anime de cada temporada pra não me manter preso a clássicos, e Sakamichi no Apollon ganhou a preferência na primavera.


O anime é um josei. A surpresa pra mim foi o diretor: Sinichiro Watanabe.  Assisti o anime todo sem saber que era dele ^^ Sakamichi no Apollon foi o terceiro anime dirigido por ele. O primeiro foi Cowboy Bebop, calcado no blues, e o segundo Samurai Champloo, calcado no hip hop. Interessante ver como todos seus animes tem uma veia musical muito forte. É também o primeiro anime dele com uma adaptação de um manga. No caso a obra homônia tem 9 volumes, e é de autoria de Yuki Kodama.


Pra entender o anime é importante entender a época em que se passa. Ele começa em 1966, pouco mais de uma década após o Japão se render aos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. O Imperador que era tido como uma divindade foi humilhado, e todo senso de superioridade japonês caiu por água abaixo. A influência americana era quase onipresente, já que o dinheiro pra reestruturar o país vinha todo dos Estados Unidos. E a geração que cresceu nessa época – os protagonistas – tinha que lidar com costumes milenares ao mesmo tempo em que assimila novos paradigmas vindos do outro lado do mundo.


Há três personagens principais: Kaoru Nishimi, um jovem introvertido que tem que mudar de  casa de tempos em tempos graças ao trabalho do pai. Tem dificuldades para se enturmar, e toca música clássica em um piano. Sentarou Kawabuchi, um brigão que toca bateria e não leva a escola muito a sério. E Ritsuko Mukae, amiga de infância de Sentarou, uma menina dócil e que se preocupa muito com os outros. O destino coloca os três na mesma sala, e uma amizade começa a crescer entre eles assim como o interesse de Kaoru por jazz.


Todos os episódios tem momentos marcantes e são bons por si só. A vida não é perfeita em Sakamichi no Apollon, mas é perfeitamente retratada. Algumas situações são até estranhas pra nossas vidas sempre conectadas a internet, com smartphones no bolso… Há uma certa nostalgia de tempos mais simples, onde a tecnologia não tinha presença tão marcante. E essa vida simples e não idealizada é bem retratada nos traços. Aqui pessoas são bonitas e feias, as meninas não tem peitos enormes anti-gravidade, e pessoas mais velhas se parecem mesmo com pessoas mais velhas. O maior realismo no visual fez muito bem pra série.


A animação é muitas vezes pobre. As cenas estáticas são comuns, provavelmente por causa do orçamento. Sinichiro Watanabe não tentou contornar isso com efeitos de iluminação complexos e falsos, ou com efeitos de partículas nem nada do gênero. Ele abraça o que tem e usa a seu favor. Há dois fatores que foram muito bem cuidados, e tem uma animação de primeira.


As expressões faciais e corporais são memoráveis. E como a dublagem é de alto nível o resultado é maravilhoso. Sabe quando você está conversando com alguém pelo qual está apaixonado? Você vai reparando nas reações a cada resposta, vai se preocupando com tudo que é dito, vai refletindo sobre as razões por trás das respostas, sobre o que ela está pensando… Tem cenas assim em Sakamichi no Apollon, voltadas pro ponto de vista de um personagem, e que te fazem entrar dentro da mente dele, sentir o que ele está sentindo. E muitas vezes você sabe que alguém tomou uma decisão errada, que interpretou algo errado, mas a vida é assim. E sempre há consequencias.


O outro lugar a animação se destaca são nas cenas dos personagens tocando. É tudo muito bem sincronizado, bem coreografado, muito fluido. Um trabalho tão detalhado que é belo e interesante por si só. A música não tem papel de dar clima pra alguma cena. Ela é a própria cena, o que mantém tudo junto, e a animação só tem como papel acompanhá-la. Uma pena que a abertura e encerramento sejam bem genéricos e não acompanhem o nível das músicas que tocam durante o anime.


E a ligação entre todos estes elementos é uma história sincera e bem montada, que trata de temas como amizade e paixão sem nunca cair na mesmice ou em clichês. Os personagens principais (e os vários secundários que aparecem) tem que lidar com uma realidade difícil e cruel e que – exatamente por isso – é bela e tocante. Eles tem que se adaptar a mudanças, superar os próprios medos e defeitos e encarar decisões importantes.


Com protagonistas marcantes, vários personagens secundários interessantes e bem criados e uma narrativa fabulosa Sakamich no Apollon se destaca. A recepção positiva que ele recebeu na internet é mais que merecida. Nunca tinha visto uma história tão bela da passagem da adolescência pra vida adulta. É belo e único, e vale cada segundo do tempo de quem se dedicar a ver.

2 comments

    1. Eu também tinha largado, mas estou dando uma chance pra várias obras e gostando. Só não consigo me empolgar mais com shonen pré-adolescente.

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