Busten Keaton

Sherlock Jr

Quando ganhei o livro 1001 Filmes Para Se Ver Antes fiquei doido para ver praticamente tudo :D Baixei vários e vi poucos, deixei juntando poeira em um canto do HD. Quando comprei meu tablet tinha o pretexto ideal para assistir filmes: a viagem de ida para minha faculdade gastava uma hora e meia. Joguei alguns filmes na memória interna e fui. O primeiro que resolvi ver foi Sherlock Jr. Não sabia se a experiência seria boa, então era melhor começar com algo mais curto, e os 44 minutos dele foram um atrativo e tanto. Um colega que estava sentado do meu lado viu o filme todo junto e a opinião foi unânime: um clássico.

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O filme é de 1924. Pela data já dá para saber: é mudo e em preto & branco. Adoro filmes preto & branco, tenho a impressão que realçam a textura de tudo. Outro ponto é que o filme é “mudo”. Coloco mudo entre parêntesis porque muitos filmes vinham com partituras a serem executadas por uma mini-orquestra enquanto os filmes estavam sendo reproduzidos. Tem até um filme de animação sobre o tema chamado Cello Hiki no Gauche cujo protagonista é um destes músicos. Em uma cena de Sherlock Jr é possível ver um piano em um cinema,cuja utilidade era exatamente esta. A versão do filme que assisti tem sim uma trilha sonora (e bem agradável), embora não tenha diálogos. Infelizmente não sei se é uma interpretação de uma suposta partitura da época ou uma trilha completamente nova feita anos depois.

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Sherlock Jr trata da vida de um jovem (Buster Keaton) que trabalha em um cinema. Ele faz a limpeza, lida com o projetor, é o zelador… um verdadeiro faz-tudo. Ele estuda para se tornar um detetive e é apaixonado por uma bela moça (Kathryn McGuire). Porém esta moça tem outro pretendente, um homem mais velho e sedutor. O protagonista pega seu único dólar e compra uma caixa de bombons para sua paixão. Já seu rival rouba o relógio do pai da moça, penhora, compra uma caixa de bombons melhor com o dinheiro e coloca a culpa do furto no protagonista, que é expulso da casa de sua amada pelo sogro. De coração partido ele volta para o trabalho, e ao ver o filme ser projetado adormece e sonha ser um dos personagens, um detetive resolvendo o caso de um roubo.

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O filme foi escrito, dirigido e protagonizado por Buster Keaton. Teve um grande sucesso de público e crítica em sua época, e embora não tenha ficado tão famoso quanto alguns de seus contemporâneos seus filmes figuram em várias listas dos melhores já criados. Sherlock Jr é uma comédia pastelão, com várias gags visuais. Elas são interessantes por si só e já valem o filme. São muito impressionantes, e eu me peguei várias vezes pensando como foram feitas. Eu acho que o 3D nasce datado. O que impressionava a alguns anos hoje é tido como falso até por crianças. Um exemplo que me vem à mente é o Gollum nos filmes de O Senhor dos Anéis. Era uma conquista tecnológica assombrosa, e hoje ao ver o bluray dá para sentir uma certa decepção. Isto num filme lançado há pouco mais de 10 anos atrás. Já Sherlock Jr, feito há quase um século, sem o auxílio de computadores nem nada digital continua tão impressionante quanto na época de seu lançamento.

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Dá para entender porque tantos dos primeiros grandes nomes do cinema eram mágicos ou engenheiros. O timing exato, recursos puramente artesanais e um bom físico e treinamento conseguem criar milagres. O filme lembra as animações malucas da Warner Bros, em especial os Looney Tunes do Chuck Jones, com todo o surrealismo e situações bizarras. E ao lidar com vários perigos com uma minúscula margem de erro é impossível não ficar ansioso e maravilhado como uma criança pequena assistindo. Buster Keaton quebrou o pescoço neste filme, e só foi descobrir anos depois.

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A interpretação também é excepcional. Os atores dos filmes mudos não contavam com entoação para emocionar, então tinham que se virar com expressão corporal. Cada movimento cria uma impressão, e tudo junto forma o personagem. O exagerado não é um defeito, é uma exigência da própria mídia. Não fosse os ótimos e criativos efeitos especiais Sherlock Jr ainda seria um filmaço. Keaton conta a história de um amor proibido, das injustiças da vida, e de como nós somos impotentes em várias situações. Mas seu personagem sonha. Mesmo que na vida real as coisas não sejam como desejamos, que não tenhamos as habilidades de nossos heróis e que nossas limitações estejam sempre conosco ainda temos o privilégio de sonhar e esperar pelo melhor. O poder desta mensagem não diminui em quase 100 anos, e não creio que vá diminuir nos próximos 100.

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3 comments

  1. E 1978 um cartaz de cinema prometia algo “impensável” para a época, dizendo: “você irá acreditar que um homem pode voar!” E foi assim que Super-Man tomou os cinemas naquele ano. Pode parecer pouco, mas o caso é que, dava mesmo para acreditar que ele voava de verdade! E mesmo hoje os efeitos visuais do filme não devem tanto assim para os de agora, principalmente pela computação gráfica pura e simples deixar tudo com um “cheiro de artificialidade”. Há muito trabalho técnico, artístico e interpretativo nestes filmes antigos que supriam as dificuldades ou impossibilidades tecnológicas da época. Coisas como sincronia de movimentos de bonecos de animação stop motion com a movimentação do ator (me parece que isso foi o que permitiu o primeiro King Kong)

    Este livro tem excelentes indicações de filmes! Inclusive entre os meus preferidos estão Nosferatu (mudo – de 1922 se não me engano) e vai bem vê-lo e depois ver Shadow of the Vampire (feito em 2000). Drácula (1931), Citzen Kane (que tem uma mensagem foda e é um puta clássico), o divertidíssimo The Rock Horror Picture Show especialmente nestes tempos xarope que vivemos, entre, claro, tantos outros! Assim como uns como Gattaca que não sei se aparece no livro mas vale a pena.

    Uma das coisas interessantes que vejo são estas mensagens e retrações da vida em si, e o fato destes filmes não serem os xaropes que temos hoje. Elmentos que também aparecem em seriados antigos, como Star Treck. Este do Sherlock Jr eu ainda não vi, mas vou me apressar. É muito bom ver algo novo, ainda que tenha sido feito no milênio passado! :D

    1. Você me fez lembrar de duas coisas importantes: não vi Cidadão Kane e não fiz um texto sobre Rocky Horror Picture Show pro MeioOrc. Pretendo remediar estes problemas o mais rápido possível :) Poxa vida, Rocky Horror Picture Show é um dos filmes desconhecidos mais legais que já assisti. E uma dose gigantesca de bom humor, ainda mais nestes tempos religiosamente opressivos que vivemos ^^

      O livro é excelente e tem outra vantagem: é baratinho :D Eu ganhei quando lançou, e já era barato, mas depois ele chegou a custar até R$9,90 no Submarino.

      Gattaca eu vi na escola, e adorei. É muito bom mesmo, e dá margem a muita reflexão.

      Em relação a seriados antigos acho que você vai gostar de Twilight Zone (a série antiga). Melhor que praticamente tudo sendo feito nos dias de hoje.

  2. Pois é, vivemos um mundo xarope! Vou procurar esta Twilight Zone! Aliás, depois que eu vi aquele filme super ruim, Dark Shadows, eu acabei procurando a série original que o inspirou e mesmo tendo visto só uns três episódios eu curti, vale a pena conhecer melhor.

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