Treeandleaf

Sobre Histórias de Fadas – J. R. R. Tolkien

Sobre Histórias de Fadas da Conrad é mais um dos livros do Tolkien que foram lançados após o boom das adaptações de O Senhor dos Anéis pro cinema. Contém duas obras diferentes: a primeira é uma das palestra em homenagem a Andrew Lang, um escritor escocês que ficou famoso por compilar contos de fadas e histórias folclóricas em uma série de livros. Em inglês se chama Tree and Leaf e tem ilustrações da Pauline Baynes que infelizmente ficaram de fora da versão nacional.

Graças ao nome nacional eu imagino uma mãe comprando este livro para filha esperando dezenas de histórias de príncipes e princesas que terminam felizes para sempre. E a cara de entediada da menina ao tentar ler um artigo acadêmico :D De qualquer forma o artigo é interessante por si só. Afinal é nada menos que o escritor da obra de fantasia mais famosa e importante dos últimos séculos falando sobre obras de fantasia.

8576162032g

Ao conseguir superar a frieza do texto acadêmico dá pra ver várias reflexões interessantes do Tolkien. Como por exemplo o que seria considerado contos de fadas, e sua aversão por criaturas mágicas diminutas. E – pra mim a parte mais interessante – dá pra ver muito da visão de vida do autor. O modo como ele idolatra a natureza e despreza completamente coisas como motores de explosão e iluminação por lâmpadas eletricas nas ruas (que para ele era uma moda passageira). E como ele enxerga a literatura de fantasia como algo redentor e até mesmo superior a várias formas de literatura e até a outras formas de arte como teatro. Contos de fadas são normalmente vistos como algo infantil, então é legal ver a situação invertida para variar.

E aqui ficam minhas críticas ao autor: Tolkien ignora boa parte do lado de transmissão de mensagens práticas e religiosas dos contos de fadas e deixa seu gosto pessoal dominar suas opiniões. Isto deixa seus critérios confusos de se analisar. Sua parte final é bem polemica: ele considera a Bíblia como um conto de fadas real. Isto é polêmico em tantos níveis pra tantos tipos de pessoas (religiosos, ateus, historiadores) que prefiro ignorar e não comentar :)

tree_and_leaf

A segunda parte é um conto: Folha por Niggle. Nele somos apresentados a um pintor chamado Niggle que vive numa casa a alguns quilômetros de uma vila, tendo apenas um vizinho por perto. Graças às pequenas interrupções do dia-a-dia e ao seu perfeccionismo Niggle não consegue terminar sua obra prima: um quadro de uma paisagem campestre que tem como elemento principal uma árvore. Ele é obrigado a fazer uma viagem e o conto se desenvolve a partir daí.

Tolkien não gostava de alegorias. Desprezava profundamente comparações de que Sauron teria sido inspirado no Hitler, por exemplo. Em alguns raros casos ele se permitiu exceções, como ao dizer que Sam representava os soldados rasos que ele veio a conhecer durante a Primeira Guerra Mundial.  Entretanto as alegorias em Folha por Niggle me parecem tão evidentes que me sinto obrigado a comentar.

Tolkien gastou sua vida no legendarium, o conjunto de histórias de seu universo no qual O Senhor dos Anéis é apenas uma parte pequena. E morreu deixando muita coisa inacabada. Pra alegria de seu filho, Cristopher Tolkien, que pode ganhar muita grana publicando coisas incompletas terminadas por ele mesmo usando o nome do pai. Este universo imenso e detalhado é a pintura de Niggle. Algo que o Tolkien temia não ser apreciado pelo público, que consumia seus pensamentos e tempo livro. Há outras alegorias, em especial a morte e o purgatório, mas pra mim o legendarium e a pintura são os mais importantes.

Eu não recomendaria Sobre Histórias de Fadas pra qualquer um. Acho que apenas um nicho bem específico vai gostar dele: pessoas que gostam das obras do Tolkien e tem curiosidade de tentar entender a mente do autor e seus pensamentos sobre a própria obra. É um livro interessante, com um conto belo, mas que serve mais de complemento a outros livros do que como fonte de interesse por si só.

Tales-from-the-Perilous-Realm-Tolkien-J-R-R-9780547154114
Esta coletânea foi desmembrada em quatro livros no Brasil

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *