The Night of the Rabbit

The Night of the Rabbit (PC)

Um problema em avaliar jogos é pensar que existem jogadores padrão. Não existem. Eu amo jogos que se parecem com RPGs de mesa ou livros de fantasia porque cresci entre RPGs de mesa e lendo livros de fantasia. Não dá pra analisar um Fifa 2014 e achar que a análise é tão útil pra mim quanto pra alguém que cresceu batendo uma bolinha na rua ou em lotes vagos. Assim como esta pessoa não verá o apelo que eu vejo em Knights of Pen and Paper. Nós vivemos em mundos diferentes.

Há muitos jogos que agradam praticamente todo mundo. A Nintendo é especialista em fazer isto. Seus consoles podem ser muito criticados pelo público “hardcore”, mas o coração dos marmanjos sempre bate mais forte com um novo Mario. Acontece que The Night of the Rabbit não é um destes jogos. A começar pelo gênero. Um adventure point & click exige criatividade, curiosidade e, principalmente, paciência. Quando a Telltale lançou seu The Walking Dead as críticas que eu via ao jogo se centravam em ele não ter muita ação. As pessoas esperava um Left 4 Dead 2. Quem espera ação não vai encontrar aqui também.

O estilo do jogo também vai afastar muita gente. The Night of the Rabbit é um jogo de fantasia, mas que tem mais relação com contos de fadas do que com Senhor dos Anéis. Em especial se você gosta de animais falantes vivendo em sociedade usando várias invenções humanas. Algo tipo Peter Rabbit, Os Animais do Bosque de Vinténs ou As Crônicas de Nárnia.

Narnia

E por último é uma história sobre magia. Não a magia das bolas de fogo e esqueletos animados, mas a magia que causa deslumbramento. Que muda a vida das pessoas. E que tem seu preço. Algo como Meu Vizinho Totoro, Os Livros da Magia ou A História Sem Fim.

Se você conhece e gosta destas obras este jogo é pra você. E você provavelmente vai se apaixonar com o trailer abaixo:

Jeremiah Hazelnut é um garoto de 12 anos cujo maior sonho é se tornar um mágico. Não que ele tenha muito talento: é sempre alvo de zoação na escola onde vive. Talvez isto faça suas férias escolares parecerem ainda mais importantes. E no último dia das férias de verão ele sai para colher blackberries para que sua mãe faça uma deliciosa torta. Ao voltar do simpático e antigo bosque perto de sua casa ele encontra uma carta com instruções. E ao segui-las ele invoca o Marquis de Hoto, um coelho gigante mágico. Este coelho é um Tree Walker, capaz de usar certas árvores para viajar entre dimensões. E ele leva Jeremiah para Mousewood, como seu aprendiz.

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Mousewood é uma pequena vila numa floresta, habitada não apenas por ratos mas por esquilos, sapos e outros animais. A cidade é atacada por corvos e serpentes, e por isto eles sempre vivem em clima de apreensão e há soldados nos perímetros da vila. Mas os habitantes são pessoas simpáticas e esperançosas, que tentam viver sua vida o mais normalmente possível.

O charme do jogo é gigantesco. Diria que este é o maior atrativo, ainda maior que os gráficos, a trilha sonora ou a história. Acompanhar o dia-a-dia dos animais e ajuda-los a resolver seus problemas é muito reconfortante. Todos eles foram dublados, e vale a pena perder algum tempo a mais só pra ouvir as vozes únicas que falam com os ruídos característicos de suas raças.

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A arte é toda feita a mão. Vale muito a pena jogar em uma TV gigante de alta resolução. Em filmes, seriados e desenhos o fundo normalmente é borrado para dar destaque aos protagonistas e a ação que acontece na frente. Em Night of the Rabbits é tudo tão nítido e detalhado que a princípio causa estranheza. Daedelic tem o talento de fazer praticamente tudo que as outras produtoras criaram parecer feio. Jogar os velhos adventures de resolução 320×240 se torna mais difícil depois de ter zerado um jogo como este.

Quem comprar a versão premium também leva a trilha sonora, uma história em quadrinhos digital e um audiobook. O conteúdo está disponível em inglês, alemão e (a HQ) em russo. Já o jogo em si oferece suporte total de dublagem e texto em inglês e alemão. Mas o texto está disponível em oito língias, entre elas o português brasileiro. Se por um lado é uma pena não ter os extras e a dublagem em português por outro é covardia reclamar, já que a produtora deu suporte a um idioma normalmente ignorado até pelas gigantes do mercado.

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A trilha sonora também é maravilhosa e não enjoa nunca. Toda instrumental, ela acompanha perfeitamente a arte. Está disponível em flac e mp3. A história em quadrinhos é pequena, só 9 páginas. E só faz sentido mesmo após ter zerado o jogo. Pode ser lida antes, como aperitivo, já que não tem spoilers. Ela está disponível nos formatos .cbr, .cbz, .pdf, .mobi e .epub. Ou seja, todos os formatos comuns. Os audiobooks eu não ouvi todos ainda, mas estão em .mp3 e .flac. Estão disponíveis em alemão e inglês e expandem o universo do jogo.

E pros completistas o jogo é cheio de coisas pra colecionar e segredos para descobrir. Eles requerem bastante atenção. Infelizmente os achievements para provar que você os fez não funcionam muito bem na Steam, especialmente rodando no Mac.

Agora que os louros foram entregues é hora de falar dos problemas. E infelizmente The Night of the Rabbits tem alguns grandes. Ele começa parado demais, e difícil demais. Antes de pegar a moeda com um buraco no meio você não tem como saber os pontos interativos da tela. Então o jeito é ficar passando o mouse por tudo quanto é lugar. É fácil deixar passar um graveto quando ele está numa floresta.

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O primeiro grande puzzle, o de invocação do Marquis, é meio bobo e desnecessariamente chato. Ter que fazer as coisas na ordem certa acaba criando um sistema de tentativa e erros que mais atrapalha que empolga. O jogo tem sua parcela de puzzles sem noção, mas este foi o mais chato pra mim.

Quando o jogo termina ele gasta alguns minutos contando a história por trás de vários acontecimentos. É bonito, empolgante, mas fica aquele gosto ruim na boca pela parte mais importante não ter sido aproveitada no jogo em si. Assistir é bom, mas pra isto temos desenhos animados. Se é um adventure point & click eu quero jogar e fazer parte de tudo.

A propósito The Night of the Rabbit daria um filme animado incrível. E embora dê margem pra continuações, não o faz com aqueles cliffhangers gigantes que sabemos que nunca serão resolvidos. Oi, Simon The Sorcerer.

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E por último temos problemas com a engine. Há problemas de sincronização, quedas de fps, bugs visuais, a animação é meio travada, lentidão pra carregar, o jogo trava do nada e volta pro desktop… É um inferno que vai piorando com o passar do tempo. Se a pessoa jogar num notebook com duas placas de vídeo coloque a dedicada como padrão, pra não passar por tudo que tanta gente passou. Ficar quinze minutos tentando carregar o jogo quebra totalmente o clima.

Ainda assim recomendo o jogo se você gosta das obras que citei no princípio. É de se encantar, e são raros jogos com este apelo. Além disso temos um mago que é o Alan Moore. Imperdível isto.

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4 comments

  1. Interessante esta sua resenha do jogo. Realmente é complicado falar de jogo pois se está falando de gosto, e gosto é complicado. Eu não sou muito de puzzle, inclusive foi o que me desmotivou a conhecer Contrast que no Steam fala ser puzzle/platform e ai eu já fico naquela que terá mais puzzle que eu suportaria. O que é muito chato pois eu achei a ideia do jogo muito maneira.

    Geralmente, jogos que tentam absorver muitos elementos acabam não funcionando em nenhum. O jogo às vezes quer ser “matar e pilhar” junto com “aventura” junto com RPG… Complica pois você vai jogar e começa a ver que em cada um dos elementos isolados o jogo tem “rivais” melhores. E juntar tudo nem sempre é tão interessante, ou dá tanto certo.

    Mas é aquele negócio, tem até quem curte Diablo III então tem de tudo! Agora, difícil… sei não, não joguei este ai mas, difícil para mim era Alex Kid que se você morresse tinha que refazer tudo de novo… E Megamania que depois da segunda etapa você tem que possuir o controle e fazer parte dele para poder conseguir controlar o canhão de maneira precisa :D

    1. Desculpe a falta de posts, é sempre bom conversar contigo pelos comentários :)

      Contrast vai ficar mega famoso só pq o line up do PS4 é fraco. Ele vai se destacar como o melhor deles. Eu sou acostumado a jogar puzzles desde criança, e gosto bastante. Mas sei que pra muita gente é insuportável ^^

      A dificuldade aqui é outra. Vai por mim, não ter ideia do que fazer e ficar entre assumir derrota (e burrice) olhando um detonado ou encarar a tela com cara de idiota é tão frustrante quanto qualquer fase de Alex Kidd, ou aquela maldita fase no finalzinho de Ninja Gaiden. Mas a sensação de vitória quando você consegue é bem viciante.

      (Sobre Diablo III, tu jogou Path of Exile? Sabe se presta?)

  2. Fiquei curioso com esse jogo. Gostei bastante da parte artística dele, e faz muito, mas muito tempo que não jogo um point and click.
    Mas o que me prendeu atenção foi o que você comentou no primeiro parágrafo, sobre análises e jogadores padrões. Concordo muito com isso, inclusive foi esse um dos motivos que me fez desanimar de criar um blog com minhas análises. Muitas vezes o jogo que gosto é tratado pela maioria como um jogo ruim, e vice versa. Não adianta, sempre vai de cada um o jeito como uma arte o afeta.

    1. Daedelic é um bom lugar pra voltar a jogar Adventures. Ela é meio que a Lucas Arts do presente. Com jogos bugados.
      E se você criar um blog pessoas que tem o gosto parecido com o seu poderão descobrir coisas novas :) Valeu pela visita, e se realmente criar um blog não esqueça de deixar o link aqui pra gente colocar nos parceiros ^^

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